Antes de qualquer palco ter sido construído no Brasil, antes de qualquer cortina ter sido costurada ou de qualquer texto ter sido escrito em língua europeia neste território, o teatro já existia. Existia no corpo do pajé Kayapó que entrava em transe diante da aldeia reunida. Existia no grito ritual do guerreiro Tupi que reencenava a caçada sagrada. Existia na dança do Toré dos povos do Nordeste, onde os vivos convocavam os mortos e os mortos respondiam através dos vivos. O teatro, antes de ser uma forma de arte com nome e teoria, era uma tecnologia espiritual — um modo de atravessar a fronteira entre o mundo visível e o invisível, de tornar presente o que estava ausente, de dar corpo ao que não tinha corpo.
Os povos Tupi e Guarani, que habitavam boa parte do litoral e do interior quando os portugueses chegaram em , possuíam uma tradição ritual profundamente teatral. O Areté — nome genérico para as grandes festas cerimoniais — durava dias, às vezes semanas, e envolvia preparação corporal rigorosa, adornos elaborados, cantos polifônicos e danças coletivas que narravano a origem do mundo, os feitos dos ancestrais, a relação entre os humanos e os deuses. O corpo do dançarino não era simplesmente um corpo em movimento: era um veículo, uma ponte. Quando o xamã assumia a máscara e o canto ritual, ele deixava de ser ele mesmo para ser o espírito invocado. Essa dissolução da fronteira entre ator e personagem, que os teatrólogos ocidentais do século XX descobrirão como grande inovação, já era prática cotidiana nas aldeias brasileiras há milênios.
Entre os Xavante do Brasil Central, as cerimônias de iniciação masculina envolviam sequências dramáticas elaboradas nas quais os jovens eram submetidos a provas que tinham, ao mesmo tempo, caráter religioso e narrativo. Havia um roteiro, havia personagens, havia conflito, havia resolução. Havia também o que só muito depois seria chamado de catarse — a transformação que o ritual operava nos participantes e nos espectadores, a sensação de ter sido levado a um limite e ter voltado diferente. A antropóloga Ellen Basso, estudando os Kalapalo do Alto Xingu, documentou narrativas dramáticas de uma complexidade surpreendente, com vozes narradoras, personagens que falavam em registros distintos, transições temporais e espaciais que desafiariam qualquer dramaturgo contemporâneo.
Os Yanomami, na Amazônia, realizavam o Reahu, a cerimônia dos mortos, que era também uma das mais elaboradas performances coletivas já documentadas no continente. Durante o Reahu, que podia durar vários dias, aldeias vizinhas se reuniam para compartilhar comida, realizar trocas e, principalmente, para encenar e processar o luto através do canto e da dança. Os hekura, espíritos auxiliares do xamã, eram convocados e incorporados em rituais que misturavam o trágico e o cômico, o sagrado e o profano, o individual e o coletivo — exatamente como o teatro ocidental faria séculos depois em seus melhores momentos. O antropólogo Bruce Albert, que passou décadas documentando a cultura Yanomami, descreveu o Reahu como "uma dramaturgia da saudade e da memória" — palavras que poderiam ser aplicadas, sem modificação, à melhor tragédia grega.
A máscara ocupa um lugar central em todas essas tradições. Para os Kayapó, as máscaras não são adereços de fantasia, mas objetos de poder — artefatos que permitem ao portador acessar forças e identidades que transcendem o indivíduo. Usar a máscara é um ato de responsabilidade ritual, não de fingimento. Quando um Kayapó veste a máscara do Jacamim ou do Gavião Real em uma cerimônia, ele não está imitando o animal: ele está se tornando o animal, convocando sua força para dentro do círculo da aldeia. Essa concepção do teatro como transformação real, não como simulacro, permanecerá como uma tensão produtiva ao longo de toda a história do teatro brasileiro, ressurgindo de forma consciente em Augusto Boal, em Zé Celso Martinez Corrêa, e em toda a tradição do teatro popular brasileiro.
É preciso resistir à tentação de enxergar esses rituais como "proto-teatro" — como se fossem uma forma primitiva que evoluiria até o teatro "de verdade" trazido pelos europeus. O ritual Tupi, o Areté Guarani, o Reahu Yanomami são formas completas e autossuficientes de arte performática, com suas próprias convenções, seus próprios critérios de qualidade, seus próprios efeitos sobre os participantes. Quando José de Anchieta chegou ao Brasil em e começou a criar seus autos, ele não estava trazendo o teatro para uma terra sem teatro. Estava entrando em contato com uma tradição performática de séculos — e a relação entre essas duas tradições, colonial e indígena, seria tensa, criativa, violenta e transformadora.
O pajé não representa o espírito — ele o torna presente. Essa é a diferença entre o teatro como mimese e o ritual como invocação. O Brasil começou pelo segundo.
— Enciclopédia do Teatro Brasileiro