Em , quando a fragata Medusa atracou no porto do Rio de Janeiro trazendo a bordo a família real portuguesa, o Brasil não tinha — ao menos nos moldes europeus — um teatro. Tinha rituais indígenas que os jesuítas tentaram canalizar para seus propósitos catequéticos, tinha folganças populares toleradas pela Coroa, tinha as festas barrocas das irmandades. Mas não tinha o que Dom João VI, príncipe regente acostumado à ópera de Lisboa, entendia por teatro: uma casa permanente, iluminada, com orquestra, camarotes e plateia.
A chegada da família real ao Rio de Janeiro foi, antes de tudo, um choque cultural monumental. A cidade tinha pouco mais de cem mil habitantes — a maioria escravizada — e uma infraestrutura inteiramente inadequada para receber uma corte de quinze mil pessoas acostumada ao fasto de Versalhes. Dom João saiu de Lisboa perseguido pelas tropas de Napoleão e chegou ao Rio como se chegasse ao exílio mais quente e úmido que jamais pudesse imaginar. Mas trouxe consigo os instrumentos de uma civilização: bibliotecas, músicos, arquitetos, médicos — e a convicção de que um soberano sem teatro não é um soberano de pleno direito.
A primeira providência foi adaptar uma casa de ópera já existente, a Casa de Ópera da Praia Grande, renomeada Teatro Real. Mas Dom João queria algo à sua altura. Em , em apenas cinquenta e nove dias de obras frenéticas, foi erguido o Teatro Real de São João — hoje Teatro João Caetano, no largo homônimo no Centro do Rio. O prazo era imperioso: a inauguração foi marcada para o aniversário da rainha Dona Maria I, e não se adiava o aniversário de uma rainha. O resultado foi uma edificação imponente para os padrões coloniais: fachada neoclássica, quatro ordens de camarotes, galerias, camarote real ao centro e capacidade para mais de mil espectadores.
O que se encenava nesse novo templo? Fundamentalmente óperas italianas — Rossini, Cimarosa, Paisiello — trazidas por companhias europeias que cruzavam o Atlântico para servir ao gosto refinado da aristocracia transplantada. O drama português, herdeiro do teatro vicentino, dividia o programa com a comédia de costumes e o melodrama que fazia as delícias das plateias burguesas da época. O repertório era, em sua esmagadora maioria, estrangeiro. A língua do palco era o italiano ou o português de Portugal. O Brasil — o Brasil real, o Brasil mestiço, o Brasil da rua — não cabia nos camarotes iluminados a vela e, depois, a gás do Teatro Real.
Essa exclusão não era acidental. Os teatros imperiais eram espaços de afirmação de hierarquia social. A distribuição do público pelo espaço físico reproduzia a ordem do mundo: os nobres e altos funcionários nos camarotes, a burguesia comercial na plateia, e o povo nas galerias superiores — quando entrava. Os escravizados, que representavam mais de um terço da população carioca, simplesmente não existiam enquanto espectadores. Podiam estar ali como serviçais, como acompanhantes, mas não como público. O palco que Dom João VI trouxe ao Brasil era um palco feito para celebrar a si mesmo — um espelho no qual a elite colonial via refletida sua própria pretensão de civilização.
Esse abismo entre o teatro oficial e a vida que pulsava fora das portas do Real São João foi, paradoxalmente, o fermento que tornaria possível Martins Pena. A tensão entre o palco de elite importado e a rua brasileira exuberante e indomável criaria, em menos de trinta anos, o primeiro gênio cômico nacional — um homem que poria exatamente esse Brasil excluído no centro do palco e faria a elite rir do que ela preferia ignorar.