No dia 14 de julho de — data escolhida não por acaso, sendo o aniversário da queda da Bastilha — o presidente Nilo Peçanha inaugurou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro diante de uma plateia composta exclusivamente por convites. Não havia venda de bilhetes para a primeira noite. Havia listas. A distinção entre quem estava dentro e quem ficava do lado de fora era, desde a fundação, o princípio organizador do lugar.
O edifício era uma demonstração explícita de poder. Construído sobre 1.180 estacas de madeira de lei enterradas no lençol freático da Cinelândia, modelado diretamente sobre a Ópera de Paris de Charles Garnier, decorado por Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e pelos irmãos Bernardelli, com mosaicos e vitrais executados por artesãos europeus especialmente recrutados para a obra — o Municipal custou, segundo o lore da época, o equivalente a 3% de toda a arrecadação da União no ano de sua conclusão. Essa cifra, verdadeira ou não, circulou por décadas com a precisão das lendas: ela dizia algo sobre o que o Brasil oligárquico considerava digno de investimento nacional.
A reforma que criou o Municipal foi a reforma Pereira Passos, iniciada em , que remodelou o centro do Rio de Janeiro à semelhança de Paris — largas avenidas, fachadas ecléticas, museus nacionais e a Biblioteca Nacional no mesmo quarteirão. Para abrir espaço para a Avenida Central (hoje Rio Branco), foram demolidos cortiços e habitações populares, empurrando a população mais pobre para os morros e para os subúrbios que cresciam sem qualquer planejamento. A reforma urbanizou o centro e desurbanizou os pobres. O Theatro Municipal foi, nesse sentido, o ornamento final de uma operação política que usou o embelezamento como instrumento de exclusão.
Em seus primeiros anos, o Municipal recebia quase exclusivamente companhias de ópera e balé vindas da Itália e da França. Não havia companhia brasileira capaz de ocupar aquele palco com a regularidade exigida. Caruso passou pelo Municipal. Sarah Bernhardt passou pelo Municipal. Arturo Toscanini passou pelo Municipal. O teatro era uma janela aberta para a Europa — mas uma janela voltada para um interior que quase ninguém via, já que as temporadas eram frequentadas pelas famílias da oligarquia cafeeira e pela diplomacia. Havia a questão do vestuário: traje de rigor era exigido para os andares superiores. A "plateia baixa" admitia roupas um pouco menos formais, mas o conceito de "um pouco menos formal" em 1910 ainda excluía a grande maioria da população do Rio.
Dois anos depois, em , São Paulo inaugurou seu próprio Theatro Municipal — projeto do arquiteto Ramos de Azevedo, no mesmo estilo eclético e com capacidade para plateias seletas. O teatro paulistano nasceu com a marca do café: foi o dinheiro das famílias ligadas à exportação de café que financiou sua construção e que preencheu suas primeiras plateias. A Semana de Arte Moderna de seria realizada justamente naquele teatro — e há uma ironia profunda nisso: a mais radical ruptura estética da história cultural brasileira aconteceu dentro do templo mais conservador da belle époque paulistana, paga por mecenas que mal sabiam o que estavam financiando.
Mas enquanto a elite aplaudia Verdi e Puccini nesses palácios dourés, havia outro teatro acontecendo fora deles — e esse teatro era muito mais vivo. Nos subúrbios do Rio e de São Paulo, nos circos-teatro que percorriam o interior do país, nos cabarés da Lapa e da Boca do Lixo, nos salões improvisados de Pinheiros e de Madureira, uma cultura dramática popular fervilhava. Os teatros de revista — com suas vedetes, suas paródias políticas, seus números musicais cheios de maxixe e choro — lotavam casas muito menores, com ingressos acessíveis, diante de plateias que riam alto e assobiavam durante o espetáculo. Esse era o teatro do povo. E, como sempre ocorre com o teatro do povo, a história oficial demorou décadas para considerá-lo digno de menção.
O paradoxo da Belle Époque teatral brasileira é que o teatro que duraria — o que produziria linguagem, memória, técnica — estava acontecendo nas margens, não no centro. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi restaurado em , depois em , depois em , recebendo 219.000 folhas de ouro na última grande reforma. Os teatros de subúrbio foram demolidos ou transformados em igrejas neopentecostais. O que sobreviveu da belle époque foi a fachada dos poderosos. O que alimentou o teatro brasileiro foi o que acontecia embaixo e por volta das fachadas.
Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Em seus primórdios, apresentavam-se no teatro apenas companhias e orquestras estrangeiras. Somente em 1931 foi criada a Orquestra Sinfônica própria do Municipal. A escola de balé foi fundada em 1927 pela bailarina russa Maria Olenewa.