— Rio de Janeiro

A Noite que Partiu o Teatro em Dois

A estreia de Vestido de Noiva e o que o público viu

A tensão era visível desde que as luzes da plateia foram apagadas. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro — o mesmo palco que havia recebido Caruso, Toscanini e Sarah Bernhardt nos anos dourados da belle époque — estava cheio para a estreia de uma peça de um jovem jornalista de 31 anos chamado Nelson Falcão Rodrigues. Durante os meses anteriores, os jornais haviam publicado críticas antecipadas elogiosas que descreviam a peça como algo inédito, mas a maioria do público não sabia exatamente o que esperar. Um crítico havia descrito o texto como "uma experiência sem paralelo no teatro brasileiro". Outro havia advertido que seria difícil. Nenhum deles havia dito o que de fato era: que o teatro brasileiro ia terminar naquela noite e recomeçar como outra coisa.

O cenário de Santa Rosa — o pintor e intelectual pernambucano Tomás Santa Rosa, o cenógrafo mais culto de sua geração — ocupava o palco em três andares verticais simultaneamente. Na plataforma superior: o plano da realidade, uma mesa de cirurgia com médicos e enfermeiras que operavam em silêncio. No meio: o plano da memória, reconstituindo as lembranças da protagonista Alaíde, atropelada na rua e levada ao hospital enquanto sua consciência derivava. Na plataforma inferior: o plano da alucinação, onde Alaíde conversava com Madame Clessi, uma cocote de 1905 morta pelo amante — uma personagem que Alaíde conhecia apenas pelo diário encontrado na casa onde morou. Três tempos, três espaços, três realidades coexistindo em cena, com cortes bruscos de luz executados por Ziembinski com a precisão de um cirurgião. Antes disso, nada parecido havia existido no teatro brasileiro. Na verdade, nada parecido havia existido em teatro de língua portuguesa.

O público, de acordo com todos os relatos contemporâneos, ficou em choque. A recepção ao final do primeiro ato foi fria — poucos aplausos, muito murmúrio, o desconforto de quem não consegue decidir se o que acabou de ver é genial ou incompreensível. O segundo ato começou e o silêncio ficou mais tenso. Ao final do terceiro ato — quando Alaíde morre na cirurgia e Madame Clessi a recebe no outro plano com as palavras "você está morta, minha filha" — o teatro ficou completamente em silêncio por alguns segundos que os presentes descreveriam décadas depois como os mais longos de suas vidas. Então, lentamente, os aplausos começaram. Cresceram. E terminaram numa ovação que durou mais de vinte minutos, com o público em pé.

Nelson Rodrigues assistia do camarote. Segundo seu próprio relato, escrito décadas depois nas memórias publicadas em O Reacionário, ele ficou tão atônito com a ovação que não conseguiu se mover. O público chamava o autor. O produtor foi ao camarote buscar Nelson. Ele estava lá, imóvel, os olhos úmidos. Quando finalmente chegou ao palco para receber os aplausos, a plateia estava tão concentrada na experiência que muitos nem perceberam sua presença. Ele descreveria esse momento como o de sentir-se "um marginal da própria glória" — uma formulação que seria citada por toda geração seguinte de dramaturgos brasileiros como a definição mais precisa da solidão do autor.

O espaço físico que aquela montagem exigia era extraordinário. Ziembinski havia conduzido os ensaios com uma intensidade inédita na cena teatral brasileira: os atores — a maioria amadores do grupo Os Comediantes, não atores profissionais — ensaiaram oito horas por dia durante o último mês, em sessões que se prolongavam pelas madrugadas porque o Municipal só ficava livre depois que o funcionamento regular havia terminado. O polonês de sotaque difícil que os convocava às duas da manhã para refazer uma cena pela décima vez era, na visão de alguns dos atores, um tirano. Na visão de todos eles, anos mais tarde, era o único ser humano que poderia ter feito aquilo acontecer.

A crítica publicada no dia seguinte foi quase unânime no elogio — com uma ressalva recorrente: o texto era "avançado demais" para o público médio. O crítico mais influente do Rio de Janeiro, Álvaro Lins, escreveu que a peça representava "uma conquista definitiva do modernismo para o teatro". Outro, no Correio da Manhã, afirmou que o teatro brasileiro havia "dado um salto de duas décadas numa única noite". Décio de Almeida Prado, que viria a se tornar o principal historiador do teatro brasileiro moderno, diria anos mais tarde que Vestido de Noiva havia chegado ao teatro brasileiro com exatos vinte e um anos de atraso em relação à Semana de Arte Moderna de 1922 — e que, mesmo com esse atraso, havia chegado com tal violência que a data de sua estreia era a única que importava.

A peça foi escrita por Nelson Rodrigues em seis dias. Ensaiada por oito meses. E mudou o teatro brasileiro para sempre.

Eu estava em meu camarote, e não me movia. A plateia chamava o autor. Chamavam por mim. E eu não conseguia ir. Eu me sentia um marginal da própria glória.

— Nelson Rodrigues, O Reacionário (Memórias)
Espetáculo — Marco Fundador do Teatro Moderno Brasileiro

VESTIDO DE NOIVA

DramaturgoNelson Rodrigues (1912–1980)
DireçãoZbigniew Ziembinski
CenografiaTomás Santa Rosa — "arquitetura cênica" em três planos verticais simultâneos
CompanhiaOs Comediantes (grupo amador carioca, fundado em 1938)
LocalTheatro Municipal do Rio de Janeiro — espaço cedido pelo ministro Gustavo Capanema
ElencoLina Grey (Alaíde), Auristela Araújo (Mme. Clessi), Stella Perry (Lúcia), Carlos Perry (Pedro)
EnredoAlaíde é atropelada na rua e levada ao hospital. Em três planos simultâneos — realidade (cirurgia), memória (triângulo amoroso com o marido e a irmã Lúcia) e alucinação (diálogo com a cocote Mme. Clessi) — a peça reconstitui a vida interior de uma mulher enquanto ela morre
InovaçãoPrimeiro uso de planos simultâneos no teatro brasileiro. Recurso do flashback, até então exclusivo do cinema. Expressionismo alemão aplicado à dramaturgia nacional

Ziembinski relatou que, ao ler o texto pela primeira vez, declarou: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". A peça foi escrita em seis dias e ensaiada por oito meses, com sessões que se estendiam pelas madrugadas no Municipal porque era o único horário livre. Os atores eram amadores. A noite de 28 de dezembro de 1943 foi descrita por Décio de Almeida Prado como o ponto zero do teatro moderno brasileiro.

O financiamento da estreia de Vestido de Noiva veio de uma fonte improvável: o Ministério da Educação do governo Getúlio Vargas, através do ministro Gustavo Capanema. O Estado Novo, regime autoritário que censurava jornais e prendia opositores, cedeu o espaço do Theatro Municipal para que uma peça sobre o inconsciente freudiano e os desejos proibidos de uma mulher estreasse diante da plateia carioca. Capanema havia financiado murmúrios sobre a "modernidade" da peça e decidiu apostar. A ironia atravessa toda a história: a ditadura brasileira, naquela noite específica, foi o patrocinador involuntário da revolução estética mais radical do teatro do país.
, Cracóvia — , Lisboa

Zbigniew Ziembinski

O exilado que trouxe o expressionismo alemão para o palco brasileiro

Em , um ator e diretor polonês chamado Zbigniew Ziembinski desembarcou no Rio de Janeiro com poucos pertences, um sotaque que os brasileiros descreviam como "bárbaro" e a memória de uma Europa que estava sendo destruída. Era judeu. Havia saído da Polônia quando a invasão alemã tornou a permanência impossível. Passou pela França, pela Espanha, pelo Brasil como escala — e aqui ficou. O Brasil não era o destino: era a última saída.

Ziembinski tinha formação europeia de alto nível. Havia trabalhado em Varsóvia com diretores que conheciam os ensinamentos de Vsevolod Meyerhold — o encenador russo que havia destruído o naturalismo do palco para substituí-lo por uma linguagem física, ritualística e expressionista, antes de ser fuzilado por Stálin em . Havia estudado o sistema expressionista alemão, com suas distorções de luz, suas sombras longas, seus atores que se moviam como figuras em quadros de Ernst Ludwig Kirchner. Conhecia Max Reinhardt e seus espetáculos de escala monumental. Chegou ao Brasil com tudo isso na cabeça e encontrou um teatro que ainda operava com os recursos e as convenções do século XIX.

O grupo que o acolheu, Os Comediantes, era formado por intelectuais e artistas amadores cariocas que faziam teatro sério sem objetivos comerciais. Eles receberam Ziembinski com a mistura de entusiasmo e desconfiança que o exilado europeu inspira: havia algo que ele sabia que eles não sabiam, e havia algo que eles sabiam — o Brasil, a língua, a psicologia do público local — que ele levaria anos para aprender. A parceria foi produtiva precisamente porque a assimetria era dupla.

Quando o texto de Vestido de Noiva chegou às mãos de Ziembinski — através do cenógrafo Santa Rosa, que o havia lido e ficado atônito — o polonês leu o primeiro ato num dia, o segundo no dia seguinte, o terceiro no terceiro dia. Não podia brincar com a língua ainda. Ao terminar, declarou, em português com sotaque carregado: "Grande peça." E começou a preparar uma montagem que duraria oito meses e consumiria toda a sua capacidade técnica.

O que Ziembinski trouxe para o Brasil não era apenas um conjunto de técnicas — era uma filosofia do que o teatro podia ser. Nos palcos europeus que ele conhecia, o diretor era o autor do espetáculo tanto quanto o dramaturgo era o autor do texto. A iluminação não era neutra: era dramaturgia. O movimento dos atores não era realista: era expressão de estados internos. "Ziembinski tinha obsessão pela luz exata", diria Nelson Rodrigues décadas depois. A luz de Vestido de Noiva — os cortes bruscos entre os três planos, os claro-escuros que faziam o plano da alucinação parecer um pesadelo, a brancura clínica da sala de cirurgia em contraste com a escuridão do bordel de 1905 — era uma criação dramatúrgica em si mesma.

Após Vestido de Noiva, Ziembinski se tornou a figura mais solicitada do teatro brasileiro. Trabalhou com o TBC em São Paulo, dirigiu Nelson Rodrigues repetidas vezes (Anjo Negro em 1948, Dorotéia em 1950, Toda Nudez Será Castigada em 1965), formou atores que formariam outras gerações. Cacilda Becker disse que aprendeu o que era direção ao trabalhar com ele. Fernanda Montenegro descreveria as aulas de Ziembinski como as mais rigorosas e transformadoras de sua formação. Antunes Filho, que se tornaria um dos maiores diretores brasileiros, assistiu às suas montagens com a atenção de quem estuda um idioma novo.

Em , Ziembinski morreu em Lisboa. Havia passado os últimos anos entre o Brasil e Portugal, trabalhando nos dois países com a mesma intensidade. Deixou sem família, sem bens materiais significativos, sem nenhum herdeiro direto além de uma linguagem que havia plantado num país que não era o seu e que floresceu por décadas depois que ele foi embora.

Zbigniew Ziembinski

, Cracóvia, Polônia — , Lisboa, Portugal

FormaçãoAtor e diretor em Varsóvia; influenciado pelo expressionismo alemão, por Meyerhold e por Max Reinhardt
Chegada ao Brasil1941 — exilado judeu fugindo da Segunda Guerra Mundial; acolhido pelo grupo Os Comediantes no Rio de Janeiro
ContribuiçãoIntroduziu o conceito de diretor como autor do espetáculo; o uso dramatúrgico da iluminação; a valorização do trabalho de grupo em detrimento do ator-estrela
Obras no BrasilVestido de Noiva (1943), Anjo Negro (1948), Dorotéia (1950), Volpone no TBC (1955), Maria Stuart (1955), Toda Nudez Será Castigada (1965), entre dezenas de outras
LegadoFormou atores como Cacilda Becker; influenciou diretamente Antunes Filho, Fernanda Montenegro e toda uma geração do teatro brasileiro
, Recife — , Rio de Janeiro

Nelson Rodrigues

O maior dramaturgo do teatro brasileiro e a tragédia que o criou

Nelson Falcão Rodrigues nasceu em em Recife, Pernambuco, o quinto de quatorze irmãos. Seu pai, Mário Rodrigues, era jornalista e ex-deputado estadual que havia sido expulso de Pernambuco por inimigos políticos, mudando-se para o Rio de Janeiro em com a família inteira — Nelson tinha quatro anos. No Rio, Mário fundou primeiro o jornal A Manhã, que perdeu para um sócio, depois o Crítica. Nelson começou a trabalhar como repórter policial no jornal do pai aos treze anos de idade, usando calças compridas para impor respeito aos colegas adultos, numa época em que o repórter policial era a estrela mais cobiçada de qualquer redação.

No dia , uma mulher chamada Sylvia Serafim entrou na redação do Crítica procurando o diretor do jornal. O jornal havia publicado os detalhes de seu desquite — incluindo a acusação de adultério — numa reportagem assinada pelo repórter Orestes Barbosa, ilustrada por Roberto Rodrigues, irmão de Nelson. Sylvia havia comprado uma arma naquela manhã. Mário Rodrigues não estava na redação. Também não estava Mário Filho, o irmão mais velho. Só estava Roberto, que tinha 23 anos, era ilustrador e era considerado pela família o gênio absoluto da geração. Sylvia atirou. Roberto levou um tiro no abdômen e morreu três dias depois, em 29 de dezembro. Nelson tinha 17 anos e estava presente na redação.

O pai de Nelson, consumido pelo luto e pela culpa de que o filho havia morrido no lugar dele, entregou-se à bebida e faleceu de trombose cerebral 67 dias depois do assassinato de Roberto, em março de . A gráfica e a redação do Crítica foram empasteladas e destruídas pelos seguidores de Getúlio Vargas durante a Revolução de 30. A família Rodrigues, que havia sido próspera, mergulhou na miséria. Nos anos seguintes, Nelson descreveria essa época como "uma fome que só tem equivalente nos retirantes de Portinari". Em , com o organismo debilitado por anos de privação, Nelson contraiu tuberculose aos 22 anos e foi internado no Sanatório Popular de Campos do Jordão, onde permaneceu catorze meses. Em , seu irmão Joffre morreu de tuberculose aos 21 anos — e Nelson passou o resto da vida convicto de ter sido o transmissor da doença.

Esse acúmulo de mortes, traumas e perdas não é contexto biográfico acidental: é o núcleo gerador da obra. Quando Nelson Rodrigues criou, ao longo de trinta e seis anos de dramaturgia, seu universo de mulheres que desejam o que não podem ter, de homens que destroem o que amam, de famílias que se devoram por dentro com a mesma intimidade com que respiram — ele estava destilando o que tinha visto na infância e na juventude: a violência doméstica como condição natural do amor, a morte como presença rotineira, o desejo como força que destrói quem não o reconhece. A diferença entre Nelson e qualquer outro dramaturgo que tentou temas semelhantes é que ele não precisava inventar o horror. Ele o tinha visto.

De vez em quando, antes de dormir, começo a me lembrar. 26 de dezembro de 1929. E as coisas tomam uma nitidez desesperadora. A memória deixa de ser a intermediária entre mim e o fato, entre mim e as pessoas.

— Nelson Rodrigues, O Reacionário — sobre o assassinato do irmão Roberto

A dramaturgia de Nelson Rodrigues é dividida pelos estudiosos — notadamente pelo crítico e teórico Sábato Magaldi, que foi seu principal intérprete durante décadas — em três fases. A primeira, as peças psicológicas, inclui A Mulher Sem Pecado (1941) e Vestido de Noiva (1943). A segunda, as peças míticas, reúne Álbum de Família (1946), Anjo Negro (1946), Dorotéia (1950), A Senhora dos Afogados (1947) e Viúva, Porém Honesta (1957) — peças de estrutura épica e arcaica, que evocam a tragédia grega e o mito freudiano com um naturalismo que o próprio Nelson chamava de "teatro desagradável". A terceira fase, as tragédias cariocas, é o conjunto mais popular de sua obra: A Falecida (1953), Boca de Ouro (1959), O Beijo no Asfalto (1961), Bonitinha mas Ordinária (1962) e O Casamento (1966) — peças de subúrbio, com personagens de nomes brasileiros, vivendo no Rio de Janeiro real, com sua brutalidade e sua dignidade coexistindo no mesmo apartamento.

Álbum de Família (1946) foi a primeira peça explicitamente censurada de Nelson. O texto trata do incesto e da violência em família com uma frontalidade que nenhum censor de 1946 poderia aprovar. A peça foi proibida por anos e só estreou — ironicamente, como obra de arte reconhecida — muito depois. Anjo Negro (1946) tem como protagonista Ismael, um homem negro que se casa com uma mulher branca e destrói todos os filhos mestiços que ela lhe dá, porque nenhum filho pode ser mais branco do que o pai. Nelson quis que a estreia em tivesse o ator Abdias do Nascimento no papel de Ismael — mas o Teatro Municipal do Rio recusou, exigindo que o personagem fosse interpretado por um ator branco pintado de negro. A proibição, documentada por Abdias em sua "Carta Aberta" de protesto, é um dos episódios mais reveladores do racismo institucional no teatro brasileiro.

Nas tragédias cariocas, Nelson encontrou sua linguagem mais popular e mais duradoura. A Falecida (1953) conta a história de Zulmira, uma mulher doente que sonha com um enterro luxuoso que o marido não tem condições de pagar — e que guarda um segredo que destruirá o que resta do casamento. Boca de Ouro (1959) é o retrato de um bicheiro do subúrbio carioca que manda colocar uma dentadura de ouro e se torna mito vivo no bairro — a peça funciona como um estudo sobre como as histórias mudam cada vez que um narrador as conta, antecipando o que o cinema chamaria de "narrativa não-confiável". O Beijo no Asfalto (1961) começa com uma reportagem jornalística — Nelson sabia de perto como a imprensa transforma fatos em ficção — e se torna um estudo sobre como a acusação pública destrói um homem inocente.

O paradoxo que todos os seus contemporâneos notaram e nenhum conseguiu explicar satisfatoriamente é o seguinte: Nelson Rodrigues era, na vida privada e nas crônicas políticas que escrevia para os jornais, um conservador fervoroso. Anticomunista declarado. Apoiador do golpe militar de 1964. Defensor da família tradicional, da religião e da moral burguesa que seu teatro sistematicamente destruía. O homem que chamava de "verme" seus detratores de esquerda era o mesmo que havia escrito, com evidente paixão dramática, personagens que traem, incestuam, matam e desejam com uma liberdade que nenhum manifesto progressista conseguia imaginar com aquela intensidade. Sábato Magaldi tentou a explicação que mais durou: Nelson era conservador na superfície e subversivo nas profundezas, e sua obra teatral expressava o que o homem público não podia admitir.

Em , Nelson Rodrigues morreu de insuficiência cardiorrespiratória e trombose no Rio de Janeiro, aos 68 anos. Naquele mesmo dia à tarde, ele havia acertado treze pontos na Loteria Esportiva num bolão com o irmão Augusto e alguns amigos do O Globo. Era, na plenitude da ironia rodriguiana, o tipo de detalhe que só poderia ter acontecido na vida de Nelson Rodrigues.

Dramaturgia — Seleção de Obras

OBRAS DE NELSON RODRIGUES

1943Vestido de Noiva — peça psicológica em três planos simultâneos; marco do teatro moderno
1946Álbum de Família — incesto e violência doméstica; peça mítica. Censurada; estreou anos depois
1946Anjo Negro — protagonista negro; conflito racial e destruição. Abdias do Nascimento barrado pelo Municipal em 1948; estreou com ator branco pintado
1953A Falecida — Zulmira e o sonho do enterro perfeito; tragédia carioca de subúrbio
1959Boca de Ouro — o bicheiro como mito vivo; estudo sobre narrativa e lenda
1961O Beijo no Asfalto — acusação pública e destruição de um homem inocente; jornalismo como máquina de ficção
1962Bonitinha mas Ordinária — o contínuo entre o amor e a desonra; tragédia carioca
1965Toda Nudez Será Castigada — Geni a prostituta; o casamento como armadilha; traição e suicídio

A obra dramática completa de Nelson Rodrigues inclui 17 peças, além de romances, contos e décadas de crônicas jornalísticas diárias. Suas peças foram adaptadas ao cinema por Leon Hirszman, Arnaldo Jabor e Bruno Barreto, entre outros. Sábato Magaldi organizou a edição das obras completas em quatro volumes pela Nova Fronteira.

Nelson Rodrigues nunca gostou de ser chamado de "gênio" pelos críticos que o elogiavam. Preferia ser chamado de "anjo pornográfico" — expressão que o biógrafo Ruy Castro usou como título do livro mais importante sobre sua vida (O Anjo Pornográfico, Companhia das Letras, 1992). A família de Nelson brigou publicamente com Ruy Castro após a publicação: a viúva e os filhos de um lado, as irmãs do outro, numa disputa sobre quais detalhes eram verídicos e quais eram exagero dramático. Ruy Castro respondeu que, tratando-se de Nelson Rodrigues, era impossível saber onde terminava o exagero e começava a realidade — e que essa incerteza era, na verdade, o maior elogio que se poderia fazer ao escritor.
São Paulo ·

Teatro Brasileiro de Comédia

O industrial italiano, os diretores europeus e o elenco mais brilhante da história do teatro brasileiro

Franco Zampari havia chegado ao Brasil em dezembro de a convite de seu amigo Ciccillo Matarazzo — sobrinho do magnata industrial Francesco Matarazzo — para organizar a metalúrgica da família Matarazzo em São Paulo. Era napolitano, engenheiro, e tinha duas paixões: cinema e teatro. Em , apresentou uma peça que ele mesmo havia escrito, numa sala da própria casa, para um público de amigos da alta sociedade paulista. Essa "brincadeira entre amigos" foi a semente que, três anos depois, floresceu numa das organizações teatrais mais importantes do século XX no Brasil.

No dia , o Teatro Brasileiro de Comédia abriu suas portas num sobrado reformado no bairro do Bixiga, na rua Major Diogo, com capacidade para 365 espectadores. A inauguração foi com dois espetáculos: o monólogo La Voix Humaine, de Jean Cocteau, declamado em francês pela atriz Henriette Morineau — e em francês, não em português — e a peça A Mulher do Próximo, de Abílio Pereira de Almeida, com uma jovem atriz de Santos chamada Cacilda Becker no elenco. Para criar a Sociedade Brasileira de Comédia que administraria o TBC na fase profissional, Zampari havia se associado a mais de duzentas famílias da elite paulistana. Era um teatro financiado pela oligarquia do café, construído por um imigrante italiano, inaugurado com um monólogo em francês: mais paulistano, impossível.

Em , Zampari percebeu que um teatro amador não poderia se sustentar financeiramente. Precisava de profissionais. Precisava de um diretor artístico com autoridade para moldar o conjunto. Contratou o italiano Adolfo Celi, que havia estudado na Academia de Arte Dramática de Roma e chegou ao Brasil com um rigor e uma capacidade de trabalho que transformaram o TBC num laboratório. Celi instituiu algo que o teatro brasileiro ainda não conhecia sistematicamente: o ensaio como processo de investigação — não o ensaio como memorização de falas e marcação de posições, mas o ensaio como descoberta do texto, da personagem e da relação entre os atores. Essa mudança de paradigma, por si só, justificaria a história do TBC.

O elenco que se formou ao redor do TBC ao longo dos anos 1950 é, coletivamente, o mais extraordinário da história do teatro brasileiro. Cacilda Becker ficou dez anos na companhia. Paulo Autran construiu a base de uma carreira de seis décadas. Tônia Carrero levou para o palco uma elegância e uma ferocidade que nenhum diretor havia conseguido antes. Walmor Chagas era o ator mais completo de sua geração. Fernanda Montenegro — que deixaria o TBC em para fundar o Teatro dos Sete com Sérgio Britto — desenvolveu na companhia a disciplina e o rigor técnico que atravessaria toda sua trajetória. Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso, Nydia Licia, Fernando Torres: cada um deles viria a ser, individualmente, um pilar do teatro e da televisão brasileiros. Nenhum deles, contudo, teria chegado a esse patamar sem o TBC.

A contradição fundamental do TBC foi a que acabou destruindo-o: sendo financiado pela elite e dirigido inicialmente por europeus que conheciam a dramaturgia do Velho Mundo melhor do que a brasileira, o TBC privilegiou sistematicamente textos estrangeiros. Pirandello, Sófocles, Schiller, Sartre, Arthur Miller, Tennessee Williams. Quando Gianfrancesco Guarnieri estreou Eles Não Usam Black-Tie no Teatro de Arena em , e a peça ficou mais de um ano em cartaz com uma história de operários paulistas em greve, a diferença ficou escancarada: havia um público enorme sedento por teatro que retratasse o Brasil real, e o TBC estava montando clássicos europeus. A crise do TBC nos anos finais não foi apenas financeira: foi a crise de um projeto cultural que havia apostado na importação quando o público estava pedindo produção própria.

Franco Zampari morreu em , dois anos após o fechamento da companhia. O teatro continuou funcionando de forma independente até , quando fechou. O prédio foi tombado em pelo Condephaat como patrimônio histórico. Em , a Funarte assinou um acordo com o SESC São Paulo para sua reabertura e restauração.

Nydia Licia foi a razão pela qual Cacilda Becker se tornou profissional. Na inauguração do TBC em outubro de 1948, a atriz Nydia Licia se recusou a interpretar um papel na peça A Mulher do Próximo porque não queria dizer a palavra "amante" em cena — nem beijar o ator na boca. Era uma questão de decoro. Cacilda, que era amadora e tinha vinte e sete anos, aceitou o papel sem hesitar — mas exigiu que a contratassem como atriz profissional. Foi o primeiro contrato de trabalho profissional de um ator em toda a história do teatro brasileiro.

Cacilda Becker

, Pirassununga (SP) — , São Paulo

FormaçãoTeatro do Estudante do Brasil (Rio), Grupo Universitário de Teatro de São Paulo (GUT), Os Comediantes, TBC
No TBC10 anos (1948–1958). Peças com Ziembinski, Adolfo Celi, Flamínio Bollini. Maria Stuart contra a irmã Cleyde Yáconis (1955) — considerado por críticos o duelo de atrizes mais eletrizante da história
Companhia própriaTeatro Cacilda Becker (TCB), fundado em 1958 com Walmor Chagas, Ziembinski e Cleyde Yáconis. 26 espetáculos em 11 anos
Morte6 de maio de 1969 — sofreu derrame cerebral no intervalo do primeiro ato de Esperando Godot de Beckett (Flávio Rangel, dir.), ao lado de Walmor Chagas e do filho Luís Carlos. Saiu do palco ainda com o figurino do clown Estragon. Morreu 39 dias depois, em coma. Tinha 48 anos
Drummond"A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Eram tantas." — Carlos Drummond de Andrade

Ela foi sendo levada pela plateia com o braço caído e eu me lembro que a mão, os dedos dela iam esbarrando pelas cadeiras. Era como se ela estivesse tentando se segurar ou se despedir daquele lugar.

— Marília Pêra (1943–2015), atriz, sobre a saída de Cacilda Becker do palco em 6 de maio de 1969
São Paulo ·

Teatro de Arena

O palco circular, Augusto Boal e a nacionalização do teatro brasileiro

O Teatro de Arena nasceu de uma ideia quase modestamente prática: um teatro sem cenário precisava de muito menos dinheiro do que um teatro com cenário. O jovem ator e diretor José Renato Pécora, formado pela primeira turma da Escola de Arte Dramática de São Paulo em , havia ouvido sobre o modelo norte-americano de arena — o palco circular cercado de todos os lados pela plateia — e calculado que sem cenários, sem coxias elaboradas, sem proscênio, uma companhia poderia fazer teatro profissional com os recursos que um grupo amador tinha disponível. Nos primeiros anos, o Arena apresentou-se em clubes, fábricas, salões e ambientes improvisados. A sede da rua Teodoro Baima, no centro de São Paulo, só foi inaugurada no final de .

A decisão artística que definiu o Arena — e que o tornou muito mais do que uma solução econômica — foi a contratação de Augusto Boal em . Boal havia cursado dramaturgia em Nova York e conhecia os escritos de Stanislavski através do Actor's Studio americano. Sua chegada trouxe para o Arena um rigor metodológico e um posicionamento político de esquerda que transformaram o grupo de uma companhia de repertório eclético numa organização cultural com programa definido. Também trouxe, pela fusão com o Teatro Paulista dos Estudantes, um elenco de jovens atores que incluía Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho (o "Vianninha"), Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e Vera Gertel.

Em , o Arena estava à beira do colapso financeiro. Boal havia encenado peças de qualidade — entre elas Juno e o Pavão, de Sean O'Casey — mas o público não estava comparecendo em número suficiente para pagar as contas. A companhia estava prestes a fechar. Então Boal, em desespero, sugeriu que montassem uma peça escrita por um dos atores do elenco — Marido Magro, Mulher Chata, do próprio Boal — para economizar os direitos autorais. A peça foi regular. Mas a ideia de montar textos da própria companhia abriu uma porta que ninguém havia antecipado.

Em , o Arena estreou Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de José Renato. Guarnieri tinha 23 anos. A peça narrava uma greve de metalúrgicos de São Paulo, o dilema de Tião — filho de Otávio, um militante sindical velho — que fura a greve para não perder o emprego e manter a namorada grávida, traindo o pai e a classe. Era a primeira vez que operários brasileiros eram protagonistas de uma tragédia séria no teatro nacional. Não figurantes, não personagens secundários, não ilustrações do "povo" visto de fora: personagens completos, com vida interior, contradições, dignidade e covardia simultaneamente.

A peça ficou em cartaz por mais de um ano — uma das mais longas temporadas do teatro paulistano até aquele momento. Salvou o Arena financeiramente. E inaugurou um período que Boal batizou de fase nacionalista: entre e , o Arena montou dezenas de peças brasileiras, criou o Seminário de Dramaturgia para revelar novos autores nacionais, e tornou-se o polo mais importante do teatro político na América do Sul.

O golpe militar de mudou tudo. As peças realistas de operários e camponeses que o Arena produzia foram proibidas pela censura. Boal e Guarnieri precisavam de uma nova linguagem — algo que driblasse a censura sem abandonar o conteúdo político. A solução foi o musical histórico: Arena Conta Zumbi (), com música de Edu Lobo, narrava a resistência do Quilombo dos Palmares. A censura não podia proibir que se cantasse sobre uma resistência do século XVII. Mas todo espectador de 1965 entendia o que a resistência de Zumbi significava no Brasil da ditadura. O sistema coringa — desenvolvido para esse espetáculo — permitia que um grupo de sete atores encenasse uma história com dezenas de personagens, com cada ator intercambiando papéis sem avisar, rompendo qualquer identificação psicológica entre ator e personagem: era Brecht levado ao limite.

Em , Augusto Boal foi preso pelo DOPS — Departamento de Ordem Política e Social — e submetido a torturas. Quando libertado, partiu para o exílio, de onde não voltaria por vários anos. O Arena, sem Boal e com Guarnieri já desligado, encerrou as atividades em . O espaço físico foi comprado pelo Serviço Nacional de Teatro em e hoje funciona como Teatro de Arena Eugênio Kusnet, mantendo o mesmo palco circular de 90 lugares onde tudo aconteceu.

Espetáculo — Peça Fundadora do Teatro Político Brasileiro

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

DramaturgoGianfrancesco Guarnieri (1934–2006), 23 anos na estreia
DireçãoJosé Renato Pécora (1926–2011), fundador do Teatro de Arena
MúsicaAdoniran Barbosa — o sambista de São Paulo, voz da cultura suburbana paulistana
Elenco originalLélia Abramo, Eugênio Kusnet, Riva Nimitz, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio, Gianfrancesco Guarnieri
EnredoOtávio, militante sindical veterano, organiza greve em metalúrgica paulistana. O filho Tião fura a greve para não perder o emprego — e manter a namorada Maria grávida. O conflito entre gerações, lealdade de classe e sobrevivência individual é o núcleo trágico
ImpactoMais de um ano em cartaz; salvou o Arena da falência. Gerou o Seminário de Dramaturgia e a fase nacionalista da companhia. Adaptado ao cinema por Leon Hirszman em 1981

Foi na excursão carioca de Black-Tie que Oduvaldo Vianna Filho (o "Vianninha") e Milton Gonçalves deixaram o Arena para fundar, em 1961, os CPCs — Centros Populares de Cultura, ligados à UNE. A peça gerou mais do que aplausos: gerou uma geração inteira de criadores.

O nome "Eles Não Usam Black-Tie" vem de uma observação sociológica precisa: o black-tie — o smoking formal, símbolo da classe que vai a teatros como o TBC e a óperas no Municipal — é o que os operários da peça não usam e jamais usarão. A dicotomia não é apenas de vestuário: é de acesso, de cidadania cultural, de quem o teatro brasileiro considerava digno de estar em cena como protagonista. Que essa peça tenha estreado no menor palco de São Paulo, num espaço sem cenário, com 90 lugares e atores mal pagos, não é irônico: é o ponto.
São Paulo ·

Teatro Oficina e Zé Celso

O grupo que explodiu o teatro brasileiro, sobreviveu à ditadura e lutou décadas por um terreno

Em , um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco — o famoso "Largo de São Francisco", onde tantas gerações de advogados e políticos brasileiros foram formados — fundou um grupo de teatro amador no Centro Acadêmico XI de Agosto. Entre os fundadores estavam José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Etty Fraser, Fauzi Arap, Amir Haddad e Carlos Queiroz Telles. Eram filhos da classe média paulistana, estudavam Direito, e faziam teatro pela mesma razão que os jovens de sua geração faziam outras coisas: porque a arte parecia a única linguagem capaz de falar sobre o Brasil que estavam descobrindo.

José Celso Martinez Corrêa — Zé Celso — nasceu em Araraquara em , filho de uma família de classe média do interior paulista. Chegou a São Paulo para estudar Direito sem nenhuma intenção declarada de se tornar o mais radical diretor teatral da história do Brasil. A intenção apareceu no processo: na medida em que o grupo experimentava, na medida em que as convenções do teatro comercial iam parecendo insuficientes, na medida em que o Brasil de ia se tornando mais urgente e mais perigoso.

Em , o grupo se profissionalizou e se estabeleceu no Teatro Novos Comediantes da Rua Jaceguai, no bairro do Bixiga. Em , Zé Celso dirigiu Os Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, num espetáculo realista rigoroso que foi recebido com entusiasmo pela crítica e permaneceu em cartaz por anos. Era o Oficina na fase mais próxima do teatro europeu tradicional — comprometido, inteligente, politicamente alinhado à esquerda, tecnicamente impecável. Mas ainda dentro das convenções do que o teatro poderia ser.

Em , um incêndio destruiu o teatro da Rua Jaceguai. Enquanto remontagens de peças antigas arrecadavam fundos para a reconstrução, Zé Celso e o grupo viajaram para o Rio de Janeiro e mergulharam em estudos: Brecht, Wilhelm Reich, filosofia marxista com Leandro Konder. Foi nesse momento que o crítico italiano Ruggero Jacobbi sugeriu a Renato Borghi que o grupo montasse uma peça obscura de Oswald de Andrade escrita em e nunca encenada. Borghi levou a ideia a Zé Celso. A primeira reação de Zé Celso foi de ceticismo: o texto lhe parecia "modernoso e futuristoide". Borghi organizou uma leitura no próprio apartamento. Zé Celso ouviu. E tudo mudou.

Em , o Teatro Oficina estreou O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, num teatro reconstruído e reformado à italiana — ironia no coração da ruptura. O espetáculo tinha Renato Borghi como Abelardo I, Dina Sfat como Heloísa de Lesbos, Othon Bastos e Otávio Augusto nos demais papéis. A cenografia era de Hélio Eichbauer — a mesma pessoa que havia trabalhado em Cuba com os muralistas. As músicas foram compostas por Caetano Veloso e Rogério Duprat, dois artistas que naquele mesmo ano estavam gestando o Tropicalismo. A montagem era uma detonação: o ritmo acelerado de revista musical, os personagens grotescos como figuras de expressionismo alemão, a nudez como gesto político, o imperialismo americano satirizado com a precisão de um cirurgião e a impiedade de um carnavalesco.

A reação foi imediata e dividida: a crítica convencional ficou desconcertada. Os jovens artistas que estavam inventando o Tropicalismo reconheceram imediatamente o parentesco — Caetano Veloso e Gilberto Gil foram ver a peça mais de uma vez. O crítico francês Bernard Dort, ao ver o espetáculo durante uma temporada em Paris em , descreveu-o como "um teatro onde o massacre é encenado como apelo à insurreição". A ditadura proibiu a peça meses depois de sua estreia. O Oficina continuou.

Em , o grupo encenbu Roda Viva, de Chico Buarque — num espetáculo que extrapolou qualquer noção de divisão palco/plateia e terminou com atores saindo pela plateia e tocando nos espectadores de formas que muitos descreveram como agressivas. Em setembro de , durante a temporada em Porto Alegre, o elenco foi agredido fisicamente no hotel onde estava hospedado por membros do CCC — Comando de Caça aos Comunistas, grupo paramilitar ligado a setores da direita extrema. A peça foi censurada. O Oficina era, a essa altura, uma das organizações mais vigiadas pela ditadura.

Em setembro de , Zé Celso foi preso pelo DOPS de São Paulo sem mandado e mantido por três semanas em isolamento, submetido a pressões que ele descreveria como tortura. A pressão da sociedade civil e da classe artística o libertou. Logo depois, partiu para o exílio — primeiro em Portugal, onde vivenciou a Revolução dos Cravos e filmou o documentário O Parto; depois em Moçambique, onde acompanhou a independência do país. Voltou ao Brasil em , com a anistia.

Nos anos 1980 e 1990, o Oficina passou por transformações profundas. O prédio da Rua Jaceguai foi reformado de acordo com um projeto radical da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi — que concebeu o espaço como uma rua longa e estreita, sem distinção formal entre palco e plateia, inaugurado em e eleito pelo jornal britânico The Guardian em como o melhor projeto arquitetônico de teatro do mundo. A mesma publicação observou que o Oficina "tem ângulos de visão desafiadores, assentos duros e uma forma que é exatamente a que os teatros não deveriam ter, mas é tanto mais intenso precisamente por isso".

A última batalha de Zé Celso — travada por décadas e concluída postumamente — foi contra o Grupo Silvio Santos, que possuía o terreno vizinho ao Oficina e planejava construir três torres residenciais e comerciais que afetariam a iluminação natural do teatro tombado. Zé Celso denunciou o projeto em público, mobilizou artistas e ativistas, processou, resistiu. Em , a Câmara Municipal de São Paulo aprovou a criação do Parque Municipal do Rio Bixiga no terreno disputado — uma vitória coletiva que chegou após mais de quarenta anos de luta.

José Celso Martinez Corrêa morreu em , em São Paulo, vítima de um incêndio em seu apartamento. Tinha 86 anos. O Teatro Oficina continua funcionando sob a direção de Marcelo Drummond, viúvo de Zé Celso.

O teatro é como o jornal, como a internet, porque a presença traz o corpo para o aqui e agora — isso nenhuma outra arte tem. A arte é uma sacassão antimessiânica em que você não espera as coisas acontecerem.

— José Celso Martinez Corrêa ("Zé Celso"), em entrevista concedida em 2021
Espetáculo — Marco do Tropicalismo Teatral

O REI DA VELA

DramaturgoOswald de Andrade (1890–1954) — escrita em 1933, publicada em 1937, estreada em 1967: 34 anos de espera
DireçãoJosé Celso Martinez Corrêa (Teatro Oficina, São Paulo)
ElencoRenato Borghi (Abelardo I), Dina Sfat (Heloísa de Lesbos), Othon Bastos, Otávio Augusto
CenografiaHelio Eichbauer
MúsicaCaetano Veloso e Rogério Duprat — no mesmo ano em que gestavam o Tropicalismo
PrêmiosPrêmio Molière e APCT — Melhor Direção (1967). Temporada em Paris (1968) — recepção europeia entusiasta
CensuraProibida meses após a estreia pela ditadura militar. Retornou ao cartaz com intervenção jurídica

A montagem é considerada o ato fundador do Tropicalismo teatral e um dos cinco espetáculos mais importantes da história do teatro brasileiro. O texto, escrito 34 anos antes, parecia ter sido escrito especificamente para o Brasil de 1967: a crise do imperialismo americano, a decadência da burguesia cafeeira, a violência das relações econômicas — tudo era atual.

A morte de Zé Celso em julho de 2023, num incêndio em seu próprio apartamento, foi descrita por amigos e companheiros como "uma morte teatral" — no sentido de que era impossível imaginar uma saída mais dramática para alguém que havia transformado o teatro em modo de vida total. O desfile da escola de samba Pérola Negra no Carnaval de São Paulo de março de 2025 foi inteiramente dedicado à sua trajetória, com 30 alas e alegorias que percorriam desde a fundação do Oficina em 1958 até a luta pelo Parque do Rio Bixiga. O carnavalesco Sidnei França estruturou o desfile como uma grande peça teatral. Zé Celso havia dito: "Quando eu morrer, eu quero ser devorado. Quero minhas vísceras entregues a algum ser canibal e artístico." A escola de samba atendeu o pedido.