I · O Nó

A Pergunta que Dividiu o Palco

Mesma ditadura, dois teatros que não se falavam — e que precisavam

Havia, no Brasil dos anos 1970, dois teatros que coexistiam sem se reconhecerem plenamente. Não eram separados por classe nem por cidade, não por falta de informação nem por indiferença mútua. Eram separados por uma pergunta filosófica que nenhum dos dois lados formulava explicitamente, mas que estava presente em cada escolha dramatúrgica, em cada gesto cênico, em cada programa impresso: o que transforma? A consciência de classe, transmitida por uma dramaturgia rigorosa e politicamente articulada? Ou a explosão do corpo, a dissolução das fronteiras do gênero, a experiência visceral que desorganiza o espectador por dentro antes que qualquer ideia possa ser transmitida?

De um lado do palco imaginário, os herdeiros do Teatro de Arena e do Grupo Opinião — Gianfrancesco Guarnieri, o fantasma de Vianninha ainda presente na dramaturgia que deixara, Paulo Pontes, e uma tradição de atuação clássica representada pela Companhia Tônia-Celi-Autran. Teatro que acreditava na palavra, no texto, na fidelidade ao personagem, na ética da representação como espelho da realidade social.

Do outro lado, os Dzi Croquettes no Rio de Janeiro e o Teatro Vivencial de Recife — grupos que recusavam a ideia de que o teatro devesse ter um programa político legível, que a cena fosse um veículo de mensagens. Para eles, o teatro era um lugar de ser diferente por duas horas, de experimentar corporalmente o que a sociedade proibia. Enquanto a esquerda cultural debatia o que dizer no palco, eles perguntavam o que era possível fazer com um corpo sobre um palco.

O que torna esse confronto extraordinariamente produtivo — e extraordinariamente triste — é que ambos os lados estavam, à sua maneira, combatendo a mesma ditadura. E ambos os lados pagaram preço por isso. Mas pagaram preços diferentes, de formas diferentes, e o que cada um pôde reivindicar como legado é também diferente. A história do teatro brasileiro dos anos 1970 não pode ser contada pela metade.

O Teatro do Corpo

Dzi Croquettes · Teatro Vivencial

O palco como lugar de transgressão corporal. O gênero como convenção a ser destruída em tempo real. A experiência do espectador precede — e supera — qualquer ideia que o espetáculo queira transmitir. O teatro não convence: desorganiza.

O Teatro da Palavra

Guarnieri · Vianninha · Tônia-Celi-Autran

O palco como lugar de consciência política. O texto como instrumento de análise da realidade social. A ação transformadora exige que o espectador entenda — e para entender, precisa ouvir. O teatro não entretém: ilumina.

II · O Corpo como Manifesto

Dzi Croquettes

Quando nem a ditadura nem a esquerda sabiam o que fazer com eles

Em , num Rio de Janeiro sufocado pelo AI-5 e pela repressão mais dura do regime militar, um grupo de treze homens subiu ao palco com coxas de fora, brilhantes nos rostos, salto alto e bigode. Não eram atores no sentido convencional — eram dançarinos, mímicos, palhaços, cantores de cabarés, gente que havia aprendido o ofício em porões e clubes noturnos antes de alguém ter a ideia de transformar aquilo numa obra de teatro. O grupo se chamava Dzi Croquettes, e o que faziam num palco não tinha precedente no Brasil.

A proposta era vertiginosa na sua simplicidade: misturar num único ser cênico o que a sociedade mantinha rigidamente separado. Masculino e feminino, viril e delicado, força física e glitter, texto de cabaret europeu e ginga brasileira. Os performers não eram drag queens no sentido contemporâneo do termo — não interpretavam mulheres. Interpretavam seres que continham multidões, que recusavam a equação uma pessoa = um gênero = um papel social. Numa época em que a homossexualidade era categorizada como doença pela medicina oficial brasileira, em que a polícia prendia homens por usar roupas femininas em público, e em que a esquerda progressista que deveria ser aliada frequentemente os via com a mesma desconfiança que o regime — os Dzi Croquettes existiram. Isso, por si só, era um ato político de magnitude que a teoria não alcança.

O espetáculo que os definiu, simplesmente chamado Dzi Croquettes, estreou em no Rio de Janeiro e foi um fenômeno imediato. Lotava. Tinha filas. Intelectuais, artistas, operários, boêmios — o público era heterogêneo numa medida que o teatro político convencional raramente conseguia. Liza Minnelli, em visita ao Brasil, assistiu e ficou encantada. Marlene Dietrich, então morando em Paris, recebeu uma apresentação privada e chorou. Esses detalhes importam não como anedota mas como dado: os Dzi Croquettes comunicavam algo que cruzava fronteiras culturais sem precisar de tradução, porque o que comunicavam era corporal antes de ser verbal.

Não somos homens. Não somos mulheres. Somos Dzi Croquettes — e isso é tudo que precisamos ser.

— Lema do grupo, anos 1970

A questão ética que os Dzi Croquettes colocavam — e que continua sem resposta simples — era sobre os limites do político no teatro. Eram politicamente subversivos? Sem dúvida: qualquer presença que desafia as categorias de gênero numa ditadura militar machista é política. Mas eles queriam ser políticos? Tinham um programa? Aqui as interpretações divergem. Alguns dos integrantes, em entrevistas posteriores, recusavam a leitura política — diziam que faziam aquilo porque era o que sabiam fazer, porque era quem eram, não por estratégia de resistência. Outros reconheciam a dimensão política mas a viam como consequência, não como intenção.

Essa distinção importa para além da anedota biográfica. Ela toca numa das perguntas centrais da teoria da performance: um ato pode ser político independentemente da intenção do performer? Judith Butler, cujo trabalho sobre performatividade de gênero se tornaria referência global nos anos 1990, argumentaria que sim — que a paródia de gênero desestabiliza a norma independentemente de quem a realiza querer desestabilizá-la. Os Dzi Croquettes praticavam Butler antes de Butler, no sentido mais concreto possível: não como conceito acadêmico mas como sobrevivência cotidiana num país onde ser o que eram era crime.

A relação entre os Dzi Croquettes e a esquerda cultural brasileira foi, para usar um eufemismo, complicada. Muitos dos intelectuais e artistas que marchavam contra a ditadura olhavam para o grupo com uma mistura de admiração estética e desconforto ideológico. O problema era claro, mesmo que raramente verbalizado: o teatro que a esquerda produzia falava em nome do povo — do operário, do camponês, do excluído econômico. Os Dzi Croquettes falavam de outra espécie de exclusão, uma que a análise de classe não capturava bem. A questão de gênero e sexualidade não entrava facilmente no vocabulário teórico disponível, e o que não entra no vocabulário tende a ser tratado como secundário. O movimento LGBTQIA+ brasileiro só se organizaria politicamente mais adiante, e seu reconhecimento pela esquerda histórica seria ainda mais tardio.

Dzi Croquettes

Dzi Croquettes · · Rio de Janeiro

Lennie Dale (EUA), Cláudio Tovar, Wagner Ribeiro, Roberto de Rodrigues, entre outros 13 performers

Cabaret performático: dança, mímica, canto, humor, drag não-binário — sem roteiro fixo entre as edições

Paris (), onde foram aclamados pela crítica europeia

Documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez () recolocou o grupo na memória cultural brasileira

III · O Nordeste Transgressor

Teatro Vivencial de Recife

Quando a periferia nordestina inventou sua própria contracultura

Enquanto os Dzi Croquettes operavam no circuito cosmopolita do Rio de Janeiro — com seus contatos europeus, suas conexões com a bossa nova e o cinema novo, seus espectadores de classe média intelectualizada —, o Teatro Vivencial nascia em num contexto radicalmente diferente: a Zona Norte de Recife, nos bairros pobres da periferia pernambucana, a partir de grupos de jovens homossexuais, travestis e pessoas transgêneras que não tinham acesso ao circuito cultural oficial e que precisaram inventar um teatro porque o teatro existente não tinha espaço para elas.

O fundador do Teatro Vivencial, João das Neves — não confundir com o dramaturgo carioca de mesmo nome —, era um professor de escola pública que começou a trabalhar com jovens marginalizados em exercícios de expressão corporal. O que emergiu desses encontros foi um teatro que misturava a linguagem do candomblé com a do cabaret nordestino, a violência da vida nas ruas com a delicadeza surpreendente de quem aprendeu a ser bonito apesar de tudo. As peças não vinham de textos escritos — emergiam do improviso coletivo, da autobiografia compartilhada, de uma prática que hoje reconheceríamos como próxima do Teatro do Oprimido de Boal, mas que chegou lá por um caminho completamente diferente, sem ter lido uma linha de teoria teatral.

O Teatro Vivencial operava numa dupla marginalidade que o tornava, paradoxalmente, mais radical do que qualquer grupo de teatro político convencional. Era marginal para o regime — por óbvio. Mas era também marginal para a esquerda cultural, que via com desconfiança um teatro que não tinha programa, que não era pedagógico no sentido reconhecível, que não produzia consciência de classe mas sim consciência de corpo. E era marginal, ainda, para o próprio movimento gay que começava a se organizar no Brasil no final dos anos 1970, porque o Teatro Vivencial falava especificamente de travestis e pessoas trans em contexto de pobreza — uma intersecção que o movimento majoritariamente de classe média tardaría a reconhecer como central.

A gente não fazia teatro para ensinar nada. A gente fazia teatro para existir. Para provar que estávamos aqui, que tínhamos um rosto, uma voz, um corpo que merecia estar num palco iluminado.

— Depoimento de integrante do Teatro Vivencial, anos 1980

A questão ética que o Teatro Vivencial coloca com uma clareza brutal é a da legitimidade da experiência pessoal como matéria teatral. O teatro político convencional baseava sua legitimidade na objetividade — falava em nome de estruturas sociais verificáveis, análises econômicas, contradições de classe. O Teatro Vivencial baseava sua legitimidade na subjetividade radical — falava em nome de vidas concretas, de corpos específicos, de experiências que a estrutura social recusava reconhecer como dignas de representação. Qual dessas legitimidades é mais sólida? A resposta depende do que você acredita ser a função do teatro — e essa pergunta, no Brasil dos anos 1970, estava longe de ter resposta consensual.

Há também a questão, raramente discutida, da memória diferencial dos grupos. Os Dzi Croquettes foram documentados em filme, têm arquivo, têm retrospectiva. O Teatro Vivencial de Recife existe em fragmentos — depoimentos orais, algumas fotos, registros esparsos em periódicos nordestinos que nunca foram digitalizados. A assimetria de documentação não é acidental: reflete a assimetria de poder que separava o Rio de Janeiro cosmopolita da periferia de Recife, o artista com rede de contatos internacional do jovem travesti de bairro pobre que tinha apenas seu corpo como capital. O que não foi documentado tende a ser esquecido — e o que é esquecido tende a não entrar na narrativa canônica da história cultural. Este verbete é uma tentativa, necessariamente incompleta, de não deixar que isso aconteça completamente.

IV · A Dramaturgia como Consciência

Gianfrancesco Guarnieri

O operário que subiu ao palco — e nunca mais desceu

Gianfrancesco Guarnieri

, Milão, Itália — , São Paulo, SP

Ator e dramaturgo. Chegou ao Brasil ainda criança e tornou-se um dos pilares do teatro político paulistano. Cofundador do Teatro de Arena. Autor de Eles Não Usam Black-Tie, o texto que definiu uma geração.

Obras principais Eles Não Usam Black-Tie (1958), Gimba (1959), A Semente (1961), Arena conta Zumbi (coaut.)
Companhia Teatro de Arena de São Paulo (cofundador, 1953)
Posição política PCB; resistência à ditadura pela dramaturgia e pela atuação
Como ator Uma das referências de interpretação naturalista no teatro brasileiro; atuou também em cinema e TV

Gianfrancesco Guarnieri tinha vinte e três anos quando escreveu Eles Não Usam Black-Tie, em . A peça acompanha uma família operária paulistana durante uma greve — o pai militante, o filho que fura a greve para não perder o emprego e manter a namorada grávida. O conflito não é entre capitalistas e trabalhadores, como seria simples demais. É entre dois trabalhadores, dois portadores da mesma classe, com visões incompatíveis sobre o que a solidariedade exige de cada um. Essa escolha foi o que tornou a peça duradoura — não a tese, mas a tensão que a tese produz quando encarnada em corpos concretos com motivações contraditórias.

A estreia no Teatro de Arena, em , foi um acontecimento. O teatro brasileiro raramente havia mostrado operários reais — com sotaque, com roupas de trabalho, com o vocabulário específico de quem não foi à escola — como protagonistas dramáticos de pleno direito, não como figuras de fundo num drama burguês. Guarnieri não documentava: dramatizava. Não denunciava: criava. E criava com uma precisão de linguagem que vinha de ter crescido entre operários, de conhecer aquele mundo de dentro, de saber que a dignidade humana existe em toda linguagem, mesmo nas que a gramática oficial não reconhece como corretas.

Ao longo dos anos 1960 e 1970, Guarnieri manteve-se fiel a essa visão de teatro — a de que a dramaturgia rigorosa, tecnicamente construída, emocionalmente densa, era o instrumento mais eficaz de transformação cultural. Não escrevia peças didáticas no sentido panfletário. Escrevia dramas nos quais as contradições da sociedade brasileira emergiam através de personagens complexos, em conflitos que o espectador reconhecia como verdadeiros. Era uma aposta na inteligência do público — na capacidade de quem assiste de tirar suas próprias conclusões, sem que o autor precisasse apertar o microfone e dizer: é isso aqui que está errado.

O teatro político que precisa gritar o que quer dizer ainda não aprendeu a confiar no palco. Quando o conflito é verdadeiro, o espectador entende sem aviso.

— Gianfrancesco Guarnieri, sobre dramaturgia política

A questão ética que a posição de Guarnieri levanta tem a ver com os limites da representação de classe. Eles Não Usam Black-Tie é um texto escrito por um italiano de classe média-baixa sobre operários brasileiros. Guarnieri viveu entre eles, os conheceu de perto — mas não era deles. Essa distância, que no texto não aparece como distância mas como intimidade, é o tipo de operação que hoje seria examinada com mais cuidado crítico: quem tem o direito de falar por quem? Quando a representação é solidária e quando é apropriação? O texto de Guarnieri não pode ser responsabilizado por perguntas que sua época não havia formulado — mas essas perguntas são legítimas quando olhamos para sua obra de agora.

Há também a questão da recepção. Eles Não Usam Black-Tie foi aclamada pela intelectualidade progressista de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas qual era o público da peça? Na sua maior parte, a mesma classe média que assistia ao resto do teatro brasileiro da época. Os operários reais raramente chegavam ao Teatro de Arena. Não por falta de intenção dos criadores — por questões de preço, de distância, de jornada de trabalho, de hábito cultural. A ironia que Dias Gomes enxergava em sua própria obra estava presente também aqui: o teatro sobre o povo era assistido principalmente por quem não era o povo. Isso invalida o teatro? Não necessariamente. Mas obriga a uma honestidade sobre quem, de fato, estava sendo transformado.

Eles Não Usam Black-Tie

Gianfrancesco Guarnieri · · Teatro de Arena, São Paulo

Pai e filho operários em lados opostos durante uma greve — a solidariedade de classe como dilema pessoal

Primeira peça brasileira a colocar operários como protagonistas dramáticos plenos, com linguagem própria e não-idealizada

Leon Hirszman, — Urso de Prata no Festival de Berlim

Continua em cartaz em montagens por todo o Brasil — um dos textos mais encenados do teatro brasileiro

V · A Tradição como Resistência

Cia. Tônia-Celi-Autran

Quando o rigor clássico era também uma forma de dizer não

A Companhia Tônia-Celi-Autran foi fundada em por três dos maiores nomes do teatro brasileiro do século XX: Tônia Carrero, Paulo Autran e Sandro Polônio (Celi). Era uma companhia de atores — não de diretores, não de dramaturgos, não de encenadores. O que a definia era a qualidade da interpretação, a fidelidade ao texto, a construção paciente de personagens que existissem de dentro para fora. Num tempo em que o teatro político debatia o que dizer, a Cia. Tônia-Celi-Autran demonstrava que o como dizer também era uma posição estética e, portanto, ética.

Os três fundadores vinham de tradições distintas que se complementavam com uma harmonia que parecia improvável. Tônia Carrero era a força física e emocional — uma atriz de presença cênica avassaladora que podia ir da comédia mais leve ao drama mais denso sem perder um átomo de verdade. Paulo Autran era o rigor intelectual, a precisão técnica, o ator que entendia o texto como arquitetura e construía cada fala com a consciência de que toda palavra está em relação com todas as outras. Sandro Celi era a elegância europeia, a influência do teatro italiano e francês que havia aprendido em Milão e Paris antes de se radicalizar brasileiro.

O repertório da companhia era predominantemente estrangeiro — Ibsen, Pirandello, Coward, Williams, Anouilh — o que levantava, já na época, a questão sobre a função de um teatro que importava obras europeias quando havia tanto material dramatúrgico brasileiro urgente por encenaer. A resposta da companhia, implícita em suas escolhas, era que a qualidade artística não tem nacionalidade, e que um Ibsen bem feito no Brasil fala de questões brasileiras com uma obliquidade que às vezes é mais eficaz do que a frontalidade. Essa posição também não estava isenta de problemas: era, em parte, a posição das elites culturais que se sentiam mais em casa com o universalismo europeu do que com a especificidade nacional. O debate nunca foi resolvido — ainda não foi.

Um bom ator não representa uma ideia. Representa um ser humano que tem ideias — e que às vezes está errado nelas. Essa diferença é o teatro.

— Paulo Autran, sobre interpretação

O que torna a Cia. Tônia-Celi-Autran relevante nesta página não é sua excelência técnica isolada — é o que essa excelência representava em contexto. Manter um padrão artístico rigoroso durante uma ditadura que humilhava, bania e torturava artistas era, em si, um ato de resistência. Não a resistência barulhenta do manifesto ou do espetáculo censurado, mas a resistência silenciosa de quem se recusa a abaixar o nível, de quem insiste que a arte merece ser feita com todo o cuidado possível mesmo quando o mundo ao redor desmorona.

Paulo Autran, que sobreviveu à companhia e continuou atuando até próximo de sua morte em , aos 85 anos, é uma das figuras que melhor exemplifica essa posição. Não era militante no sentido orgânico — não assinava manifestos nem subia em palanque. Mas escolhia seus papéis com cuidado, recusava trabalhos que julgava indignos de seu ofício, tratava o teatro com a seriedade de quem acredita que a cultura é uma das últimas linhas de defesa da humanidade contra seus próprios piores impulsos. Em , quando o golpe aconteceu e muitos artistas foram presos, ameaçados ou exilados, Autran continuou trabalhando. Sua resistência era a continuidade — a recusa de deixar que o medo interrompesse o ofício.

VI · O Que Ficou

O Debate que Não Acabou

Questões éticas, sociais e estéticas que os anos 1970 deixaram — e que seguimos sem resolver

O confronto entre o Teatro do Corpo e o Teatro da Palavra não foi resolvido nos anos 1970. Não foi resolvido porque não é o tipo de coisa que se resolve — é o tipo de coisa que se negocia eternamente, e bem. O teatro que escolhe a transgressão corporal e o teatro que escolhe a articulação política não são rivais: são faces complementares de uma mesma aposta na capacidade da arte de interferir na vida humana. O problema é que, na prática, eles raramente se falaram como iguais. E quando não se falam, cada um empobrece.

A questão da identidade versus a questão da classe atravessa esse debate com toda a sua tensão não resolvida. Os dramaturgos da esquerda política tendiam a ver a questão de gênero e sexualidade como secundária em relação à contradição econômica fundamental. Os grupos de contracultura tendiam a ver a questão de classe como uma das muitas formas de opressão, não necessariamente a mais urgente para quem era também oprimido por sua identidade de gênero ou orientação sexual. Ambas as posições capturavam partes da realidade. Nenhuma capturava o todo. A necessidade de uma análise que articulasse raça, classe, gênero e sexualidade — o que hoje chamamos de interseccionalidade — estava presente na experiência concreta de grupos como o Teatro Vivencial, mas sem o vocabulário teórico que permitisse articulá-la claramente.

Há também a questão do arquivo e da memória. O teatro da esquerda política — Guarnieri, Vianninha, o repertório do Arena — foi objeto de estudos acadêmicos, documentação extensa, reedições de textos, montagens comemorativas. Os Dzi Croquettes existem graças a um documentário realizado décadas depois. O Teatro Vivencial de Recife existe em fragmentos dispersos. A assimetria de memória é também uma assimetria de poder — e diz algo importante sobre quais histórias uma sociedade decide contar sobre si mesma e quais deixa apagar.

Por fim, a questão da eficácia política. Qual dos dois teatros transformou mais? O que produziu consciência de classe em trabalhadores? Ou o que mostrou a um adolescente gay de classe média que havia outros corpos possíveis, outras formas de existir, antes que ele tivesse palavras para o que sentia? Essa pergunta é impossível de responder com dados. Mas é possível — e necessário — recusá-la como pergunta que pressupõe que transformação tem apenas uma forma e apenas um destinatário. O teatro que mobilizou greves e o teatro que salvou vidas individuais ao mostrar que a diferença era possível são, ambos, teatro político no sentido mais profundo do termo. Reconhecer isso não diminui nenhum dos dois — amplia o que entendemos por política.

O teatro que ilumina e o teatro que desorganiza não são opostos. São os dois lados de um mesmo espelho — e o que vemos depende de qual lado estamos quando olhamos.

— Reflexão editorial, Enciclopédia do Teatro Brasileiro