I

O Mamulengo
e o Teatro de Bonecos

Da Europa Medieval ao Sertão do Nordeste — uma viagem de cinco séculos

Quando um boneco de madeira levanta o braço dentro de uma barraca de lona pintada no sertão nordestino e faz a plateia rir às gargalhadas, o que está acontecendo é um milagre de transmissão cultural que atravessou cinco séculos e dois oceanos. O teatro de bonecos europeu — descendente direto das formas medievais de representação cômica que acompanhavam as festas religiosas nas praças das cidades ibéricas — chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e encontrou aqui uma terra que o transformou em algo que a Europa jamais poderia ter imaginado. O Nordeste brasileiro não apenas absorveu a herança europeia do teatro de bonecos: a reinventou, a africanizou, a enraizou no barro vermelho do semiárido e criou uma das formas teatrais mais originais e filosoficamente ricas do mundo.

O nome Mamulengo — registrado sobretudo em Pernambuco — tem etimologia disputada. Há quem o derive do quimbundo mamu lungu, expressão que designaria algo como "mão mole" ou "dedos frouxos", em referência ao modo como o manipulador insere a mão na cabeça do boneco. Há quem veja raízes no tupi. Há ainda quem proponha uma corruptela do português antigo. A imprecisão da origem é ela mesma um dado sobre o que o Mamulengo é: uma síntese que nenhuma origem única explica completamente. Como toda grande forma cultural brasileira, o Mamulengo é filho de muitos pais e de nenhum deles inteiramente.

O universo cênico do Mamulengo tem um centro físico preciso e um horizonte simbólico ilimitado: a barraca. É uma estrutura simples — tecido, madeira, às vezes apenas lona amarrada com cipó — que divide o espaço em dois mundos. Dentro da barraca vivem os manipuladores, invisíveis ao público, controlando os bonecos com as mãos por baixo. Fora da barraca vive o mundo real, que é convocado, satirizado, exorcizado e festejado pelo que acontece lá dentro. A barraca é um portal. Quando Benedito salta pela janela de abertura e grita para a plateia, não está começando um espetáculo: está abrindo um tribunal onde o poder vai ser julgado e o povo vai dar a sentença.

Os personagens do Mamulengo constituem um panteão arquetípico de uma riqueza que rivalizaria com qualquer mitologia clássica. João Redondo — ou simplesmente João, o herói popular por excelência — é o esperto que nunca tem poder mas sempre encontra uma saída. É o nordestino na sua forma mais concentrada: faminto, amoroso, trapaceiro quando necessário, capaz de enganar o Diabo, vencer o Capitão e fazer a Morte rir. Benedito é o pícaro negro, o palhaço que diz a verdade embrulhada em chasqueio, cujas piadas sobre fome, trabalho e exploração têm a precisão de uma faca. O humor de Benedito é política popular condensada em duas frases e uma careta — e não é casual que seja a figura negra da barraca aquela que mais abertamente confronta os poderosos.

O Capitão representa o poder constituído na sua versão mais visível: o coronel, o militar, o senhorio, o homem de patente que exerce a violência com a cobertura da autoridade. No Mamulengo, o Capitão é sempre derrotado — não pela força, mas pela astúcia. A plateia sabe que na vida real os capitães raramente perdem. É exatamente por isso que o teatro existe: para encenar a vitória que a realidade nega. Já o Diabo e a Morte são figuras ambíguas e poderosas. A Morte no Mamulengo não é apenas a inexorável ceifeira europeia — é uma figura que negocia, que pode ser enganada, que tem humor e até compaixão. O Diabo é frequentemente o mais esperto de todos, e sua derrota final diante de João ou de Benedito é menos um triunfo moral do que uma demonstração de que a inteligência popular pode superar qualquer força sobrenatural.

O que é fundamental compreender sobre o Mamulengo é que ele não é entretenimento no sentido moderno, industrializado, separado da vida. O Mamulengo é filosofia popular encenada. Cada apresentação é um evento comunitário onde a plateia não assiste — participa. Responde aos bonecos, xinga o Capitão, aconselha João, ri do Diabo, negocia com a Morte. O mestre mamulengueiro não dirige um espetáculo: preside um ritual coletivo de processamento simbólico das tensões, injustiças e alegrias da comunidade. Quando a barraca fecha, o povo não foi distraído. Foi, de alguma forma difícil de nomear mas fácil de sentir, curado de alguma coisa.

O boneco diz o que o povo não pode dizer.
Ri do Capitão na cara do Capitão.
Engana a Morte sem precisar morrer.
Isso não é teatro. É sabedoria.

— Sobre o Mamulengo como filosofia popular

As variações regionais do teatro de bonecos nordestino revelam a riqueza de uma tradição que nunca foi uniforme. Em Pernambuco o nome é Mamulengo — e é dali que vêm os mestres mais documentados e as tradições mais estudadas. No Rio Grande do Norte, o personagem central empresta o nome à forma toda: João Redondo é tanto o herói quanto o espetáculo. No Ceará, o brinquedo se chama Cassimiro Coco — nome que já carrega em si uma gostosura sonora, uma promessa de que o que vem pela frente não vai ser melancólico. Em Alagoas e Sergipe, Calunga — palavra banto que designa, entre muitas outras coisas, "o outro lado", o mundo dos ancestrais. Na Paraíba, Babau. Cada nome é uma identidade regional, uma forma de dizer que este boneco é nosso, não veio de fora, cresceu aqui, fala com nosso sotaque.

Os mestres que construíram e transmitiram essa tradição merecem ser nomeados com precisão, porque a história oficial raramente os nomeia. Mestre Ginu, pernambucano, foi uma das vozes mais estudadas pelos pesquisadores que documentaram o Mamulengo no século XX. Zé Lopes e Zé de Vina são referências incontornáveis da tradição potiguar do João Redondo. Fernando Augusto, o Cheiroso, é um dos nomes que a pesquisa de Hermilo Borba Filho preservou para a posteridade — um mestre que nunca teve museu, universidade nem salário, mas que carregava nas mãos um saber que levou décadas para ser reconhecido como patrimônio.

O Mamulengo Só-Riso, fundado em Olinda em , é o projeto contemporâneo mais importante de continuidade e renovação desta tradição. Nascido da pesquisa e da paixão pelo teatro popular, o grupo estabeleceu em Olinda um espaço permanente para o Mamulengo — um local de apresentações, formação e preservação de repertório que se tornou referência nacional e internacional para pesquisadores, artistas e educadores interessados no teatro de bonecos popular.

O reconhecimento formal chegou em , quando o IPHAN registrou o Mamulengo como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil — um ato que foi ao mesmo tempo chegada e início. Chegada porque confirmou oficialmente o que o povo já sabia há séculos. Início porque o registro não preserva nada sozinho: exige políticas públicas, recursos, formação de novos mestres, espaços de apresentação. O Mamulengo inscrito no patrimônio ainda é um Mamulengo que depende de pessoas que o escolhem como ofício e como vida, num país que ainda não aprendeu a pagar adequadamente pelos seus saberes mais preciosos.

Patrimônio Cultural Imaterial

O Mamulengo

Teatro de Bonecos Popular · Nordeste do Brasil · Registro IPHAN 2015

Mamulengo (PE) · João Redondo (RN) · Cassimiro Coco (CE) · Calunga (AL/SE) · Babau (PB)

João / João Redondo · Benedito · O Capitão · O Diabo · A Morte · A Mulher · O Doutor

A barraca — estrutura que divide manipuladores e público, dentro e fora, sagrado e profano

IPHAN — Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil (2015)

◆ As Variações: um mapa vivo

O teatro de bonecos popular nordestino nunca foi uma forma única e uniforme. Cada estado desenvolveu sua versão com personagens próprios, músicas diferentes, ritmos de apresentação específicos. Essa pluralidade não é fragmentação — é saúde. Uma forma cultural que se adapta ao lugar onde vive é uma forma que ainda está viva. O desafio para os pesquisadores é documentar essa diversidade sem congela-la: o Mamulengo que existe num arquivo é diferente do que existe numa barraca, num sábado à noite, diante de uma plateia que sabe responder.

II

Hermilo
Borba Filho

1917–1976 · O homem que decidiu que o povo merecia uma teoria

Há uma classe específica de intelectuais que faz o trabalho mais ingrato e mais necessário da cultura: os que decidem que aquilo que todos desprezam merece atenção rigorosa. Hermilo Borba Filho foi um desses homens. Recifense, nascido em , filho de uma família de classe média que lhe deu livros mas não o preparou para descobrir que os livros que importavam podiam estar sendo encenados por bonecos de madeira numa praça de feira. Hermilo descobriu isso por conta própria, com os olhos abertos, e decidiu que não bastava gostar. Era preciso entender, documentar, teorizar, transmitir.

A trajetória intelectual de Hermilo começa no teatro estudantil. Em , fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), uma das experiências mais criativas do teatro nordestino do século XX. O TEP não era apenas um grupo de teatro: era um projeto de pesquisa sobre as formas populares da região, um espaço de formação para jovens artistas, uma plataforma de debate sobre o que o teatro nordestino devia ser. O Recife dos anos 1940 e 1950 era uma cidade culturalmente vigorosa — com Josué de Castro pensando a fome, com o Movimento de Cultura Popular que mais tarde influenciaria Paulo Freire, com músicos e poetas inventando uma linguagem da região. Hermilo estava no meio de tudo isso, plantando a questão teatral com a tenacidade de quem sabe que a questão é importante mesmo quando ninguém mais parece notar.

O trabalho de campo que Hermilo realizou nas feiras, nos terreiros, nos arraiais e nas barracas de Mamulengo de Pernambuco e estados vizinhos é um dos mais extraordinários da história da pesquisa cultural brasileira. Ele não foi como antropólogo olhando para um objeto exótico: foi como homem de teatro que reconhecia naqueles mestres um conhecimento que a academia nunca havia sistematizado mas que era, em todos os sentidos que importam, superior ao que se ensinava nos conservatórios. Gravou, anotou, entrevistou, assistiu dezenas de vezes às mesmas apresentações até compreender a lógica interna de um sistema dramatúrgico que parecia espontâneo mas que tinha regras precisas, transmitidas oralmente de mestre a aprendiz ao longo de gerações.

Em , publicou Fisionomia e Espírito do Mamulengo — o livro que nenhum pesquisador de teatro popular brasileiro pode ignorar. O título já é uma declaração de posição: não uma "introdução" ou um "estudo preliminar", mas uma fisionomia e espírito — como se o Mamulengo fosse um ser vivo com rosto e alma, merecedor de uma análise que fosse ao mesmo tempo exterior (o que se vê) e interior (o que se sente). O livro é simultaneamente uma etnografia das formas, um ensaio sobre a função social do teatro popular e uma peça de prosa lírica sobre o Nordeste. Hermilo sabia que a única forma de fazer jus ao Mamulengo era escrever sobre ele com a mesma mistura de humor, seriedade e amor com que o Mamulengo tratava a vida.

Além da pesquisa, Hermilo foi dramaturgo. Peças como Auto do Cavalinho do Cão e O Sumidouro tentam fazer o caminho inverso do trabalho de campo: trazer para a dramaturgia escrita o vigor, a ironia e a concisão das formas populares. São textos que não escorregam para o pitoresco — não tratam o popular como enfeite, mas como estrutura. A herança de Ariano Suassuna, que foi amigo e interlocutor de Hermilo, é inseparável desse projeto comum de criar uma dramaturgia nordestina que fosse simultaneamente popular e literária, regional e universal.

Hermilo Borba Filho morreu em , antes de ver muito do reconhecimento que seu trabalho merecia. Mas as gerações de teatreiros nordestinos formadas por ele — e pelos que ele formou, e pelos que esses formaram — continuam encenando, pesquisando, construindo bonecos e barracas em toda a região. O maior legado de um mestre é, em última instância, não o livro que escreveu mas as pessoas que sua existência tornou possíveis.

O teatro nordestino não precisa ir à Europa buscar inspiração.
A inspiração está na praça, na barraca, na voz do mestre que
nunca precisou de palco para fazer o mundo parar e ouvir.

— Sobre a visão de Hermilo Borba Filho
Perfil

Hermilo Borba Filho

, Palmares, PE — , Recife, PE

Teatro do Estudante de Pernambuco — TEP (1946)

Fisionomia e Espírito do Mamulengo (1966) — primeira grande teoria do teatro popular nordestino

Auto do Cavalinho do Cão, O Sumidouro, entre outros textos que incorporam as formas populares à dramaturgia escrita

Base teórica do estudo do teatro popular nordestino; influência sobre Ariano Suassuna e gerações subsequentes

III

O Bumba-Meu-Boi
e a Festa que Nunca Acaba

Morte, Ressurreição e Brasil — o drama mais antigo do país

No começo há um boi. Um boi sagrado, gordo e reluzente, orgulho do patrão fazendeiro. Uma mulher grávida que deseja, com aquela gana irresistível dos desejos de gestante, comer a língua desse boi. Um marido que a ama tanto que vai atrás do impossível. O boi morre. O patrão descobre, furiosa a fazenda toda. Médicos, pajés, curandeiros são chamados de todos os cantos. O boi ressuscita. A festa explode.

Esse é o núcleo narrativo do Bumba-Meu-Boi — e nessa história de seis linhas está condensada toda a complexidade de uma civilização. Pai Francisco é o trabalhador negro, servo ou escravo, que age por amor num mundo que só lhe pede obediência. Mãe Catirina é a mulher grávida cujo desejo é mais forte que a lei do senhor. O patrão é o poder econômico que considera o boi propriedade e o trabalhador instrumento. O boi sagrado é aquilo que não deveria morrer mas morre — e que a festa, com toda a sua força coletiva, faz ressurgir. A morte e a ressurreição do boi não são apenas narrativa: são um ato ritual onde a comunidade processa, através da encenação, o luto, a culpa, o poder, o desejo e a esperança.

As raízes do Bumba-Meu-Boi são tão diversas quanto o Brasil que as produziu. Da herança europeia vêm as festas do boi relacionadas ao ciclo de São João e às danças dramáticas medievais ibéricas. Da herança africana vêm os rituais de culto ao touro sagrado presentes em diversas culturas do continente, além de todo o repertório de canto, dança e percussão que anima a festa. Da herança indígena vêm o pajé que ressuscita o boi, os elementos de contato com o sagrado animal, a lógica de um drama onde natureza e humanidade negociam. Nenhuma dessas raízes é suficiente sozinha para explicar o que o Bumba-Meu-Boi se tornou. O resultado da síntese é algo que nenhum dos três povos que o geraram poderia ter criado sem os outros dois.

O Maranhão é a terra do Bumba-Meu-Boi por excelência — e ali a festa existe em variações tão ricas que os pesquisadores as organizam em oito sotaques, cada um com instrumentação, figurino, coreografia e calendário ritual próprios. O Zabumba é pesado, percussivo, de matraca dupla; o Matraca tem o batuque urgente que viaja pelos bairros na madrugada. O Orquestra incorpora instrumentos de sopro numa festa que se abre para a elegância. A Baixada preserva cantos mais antigos, de raiz mais densa. O Costa de Mão, o Pindaré, o Ilha e o Litoral guardam cada um um tesouro específico de repertório, vestimenta e gestualidade que seria irredutível ao sotaque vizinho. Oito sotaques são oito dialetos de uma mesma língua — e entender os oito é entender o Maranhão.

A versão mais espetacularizada e internacionalmente conhecida do folguedo é o Boi-Bumbá de Parintins, no coração do Amazonas. Desde a década de 1960, os dois grupos rivais — Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul) — transformaram a festa tradicional numa competição anual que atinge proporções únicas no mundo. O Festival de Parintins enche uma arena coberta com capacidade para mais de 35 mil pessoas durante três noites em junho, e a disputa entre os dois bois é transmitida pela televisão, acompanhada por milhões de pessoas. É, ao mesmo tempo, o maior espetáculo popular brasileiro e um objeto de debate acirrado: a espetacularização transformou o Bumba-Meu-Boi em produto cultural de grande escala sem matar o sentimento de pertença e de rivalidade comunitária que o alimenta — ou teria criado uma versão de consumo que drena o significado da festa original? A resposta honesta é que as duas coisas acontecem simultaneamente, o que é uma definição razoável de cultura viva.

No Sul do país, o Boi-de-Mamão catarinense é uma versão do mesmo drama que incorporou personagens do imaginário local — a Maricota gigante, o Cavalinho, a Bernunça — numa festa que acontece em praças e ruas da grande ilha de Florianópolis e do litoral catarinense. É o mesmo boi, outra voz.

Em , a UNESCO inscreveu o Complexo Cultural do Bumba-Meu-Boi do Maranhão na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento confirmou o que os maranhenses sabiam e praticavam há três séculos: que aquilo que acontece nas ruas de São Luís em junho não é uma festa local. É um dos mais complexos e originais dramas rituais do mundo — e o Brasil o criou sem pedir licença a nenhuma teoria teatral ocidental.

O boi nasce, o boi morre.
Pai Francisco chora, o patrão grita,
o pajé canta — e o boi abre os olhos.
Toda a história do Brasil cabe nesse milagre.

— Sobre a dramaturgia do Bumba-Meu-Boi

Zabumba

O sotaque da percussão grave, das zabumbas triplas que fazem o chão vibrar. Predominante no interior maranhense, com canto de improviso e figuras mascaradas.

Matraca

O sotaque urbano de São Luís. As matracas de madeira batem o ritmo nas madrugadas. O toque é mais rápido, a festa percorre os bairros antes do amanhecer.

Orquestra

Metais e sopros entram na festa. O figurino é mais elaborado, os movimentos mais coreografados — sem perder a força ritual do folguedo.

Baixada

Da região da Baixada Maranhense. Cantos mais longos, melodias mais antigas, lógica mais próxima dos rituais de origem. Cada comunidade guarda um repertório que não se encontra em outro lugar.

Costa de Mão

Característico da região da Costa de Mão, com percussão marcada nas costas das mãos e marcação de pé forte, herdada dos rituais de terreiro.

Pindaré · Ilha · Litoral

Três sotaques que guardam cada um identidade geográfica e cultural própria — o rio, a ilha e o mar como matrizes de formas festivas distintas, reunidas sob o mesmo drama do boi que morre e ressuscita.

Patrimônio Cultural · UNESCO

Bumba-Meu-Boi

Folguedo Dramático · Brasil · Inscrição UNESCO 2019

Pai Francisco · Mãe Catirina · O Boi Sagrado · O Patrão · O Pajé · O Amo do Boi

Europeias (festas do boi ibéricas) + africanas (cultos ao touro) + indígenas (pajé, natureza sagrada)

São Luís (MA) — 8 sotaques · Parintins (AM) — Festival dos Bois · SC — Boi-de-Mamão

UNESCO — Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade (2019)

IV

Pastoril, Reisado
e Cavalhadas

Os folguedos que transformam a rua em palco e a fé em espetáculo

O teatro popular brasileiro nunca precisou de quatro paredes. A rua foi sempre seu palco natural — não por falta de recursos, mas por excesso de presença. Uma forma teatral que acontece na praça não pode ignorar o mundo real: ele está ali, ao lado, dentro, ao mesmo tempo que o espetáculo. Os folguedos dramáticos brasileiros existem nesse espaço de porosidade entre representação e vida, entre sagrado e profano, entre diversão e devoção.

O Pastoril é teatro de rua natalino no sentido mais preciso e mais encantador. Duas alas de pastoras — a Encarnada (vermelha) e a Azul — se apresentam em noites de dezembro e janeiro nas ruas do Nordeste, cantando, dançando e representando a adoração ao Menino Jesus, mas com um tempero cômico e às vezes picaresco que é a marca registrada desta forma. O Pastoril sério e o Pastoril profano coexistem no mesmo espetáculo, às vezes na mesma noite: as pastoras cantam devoção e logo depois uma personagem cômica arranca gargalhadas da plateia com situações que nada têm de sacro. Essa mistura — o sagrado e o profano no mesmo palco, sem que um destrua o outro — é uma característica estrutural do teatro popular brasileiro que a crítica culta jamais conseguiu compreender completamente, por estar habituada a formas que separam o religioso do cômico em compartimentos estanques.

O Reisado nordestino é uma forma ainda mais antiga e complexa. Acontece no período de Natal ao Dia de Reis (janeiro), percorre as casas da comunidade em cortejo que inclui música, dança e representações dramáticas. No Reisado existem figuras arquetípicas — o Cavaleiro, o Rei, o Palhaço, a Rainha — que evocam ao mesmo tempo a narrativa bíblica dos Reis Magos e toda uma mitologia popular de poder, aventura e transgressão. Cada grupo de Reisado carrega um repertório específico, às vezes único: cantos que ninguém mais canta, músicas que só aqueles músicos conhecem, danças que foram passadas de avô para neto sem jamais serem escritas. O Reisado é um arquivo vivo — e como todo arquivo vivo, morre quando a corrente de transmissão se rompe.

A Folia de Reis é o teatro itinerante do mês de janeiro. Grupos de foliões percorrem as casas das comunidades — no interior do Sudeste, no Nordeste, em Goiás, em Minas Gerais — cantando o itinerário dos Reis Magos em busca do Menino. O responsório entre o mestre da folia e os foliões, entre os que estão fora da porta e os moradores que abrem a casa, tem a estrutura de um diálogo teatral: perguntas e respostas ritualizadas, papéis fixos, um texto que é ao mesmo tempo escrito (na memória) e improvisado (na expressão). Quando a folia entra numa casa e canta, está encenando uma visita sagrada — e quem abre a porta é, por aquele momento, parte do elenco.

As Congadas são o teatro afro-brasileiro da coroação do Rei Congo — uma forma que nasceu das irmandades negras do período colonial, quando os escravizados recriavam, dentro dos limites que a sociedade escravista permitia, a estrutura de uma corte africana. A coroação do Rei e da Rainha Congo, os embaixadores, os guerreiros, a Guarda de Nossa Senhora — tudo isso é, simultaneamente, devoção religiosa, afirmação de identidade cultural, política de sobrevivência e teatro. As Congadas acontecem em cidades do interior de Minas Gerais, de Goiás, do interior paulista — e em cada uma delas, a comunidade negra que as sustenta está dizendo algo sobre quem é, de onde vem e por que o Brasil que tentou apagar isso não conseguiu completamente.

E então há as Cavalhadas de Pirenópolis, em Goiás — um drama equestre de proporções épicas que acontece há mais de duzentos anos nas ruas de uma cidade colonial. A narrativa é a batalha entre cristãos (azuis) e mouros (vermelhos) — o mesmo conflito medieval ibérico das lutas de fronteira entre a cristandade e o islã que foi trazido para o Brasil pelos colonizadores no século XVIII. Vinte e quatro cavaleiros por lado, figurinos elaborados, máscaras, música, cavalos treinados para a parada — durante três dias, as ruas de Pirenópolis se tornam um palco épico onde a história da Europa medieval é reencenada no cerrado goiano. O que poderia parecer um anacronismo kitsch é, na verdade, uma forma teatral de rara integridade: a comunidade de Pirenópolis carrega essa tradição não porque lhe foi imposta, mas porque a fez sua.

Pastoril

Teatro de rua natalino com duas alas rivais (Encarnada × Azul). Mistura devoção e humor em noites de dezembro/janeiro no Nordeste. O sagrado e o profano no mesmo palco — sem contradição.

Reisado

Cortejo dramático do Natal ao Dia de Reis. Figuras arquetípicas (Rei, Cavaleiro, Palhaço, Rainha) percorrem as comunidades com repertório oral preservado de geração em geração.

Folia de Reis

Teatro itinerante de janeiro. Os foliões percorrem casas, cantando o itinerário dos Magos. Quem abre a porta entra no elenco. O sagrado visita o cotidiano — e o cotidiano se transforma.

Congadas

Teatro afro-brasileiro da coroação do Rei Congo. Nascida das irmandades negras coloniais. Devoção, identidade e resistência cultural em cidades do interior do Brasil.

Cavalhadas de Pirenópolis

Drama equestre de cristãos e mouros há mais de duzentos anos em Goiás. 48 cavaleiros, três dias de encenação épica nas ruas coloniais. A Europa medieval reencenada no cerrado brasileiro.

O que todos têm em comum

Cada folguedo é uma forma dramática completa: narrativa central, personagens arquetípicos, espaço cênico definido, plateia participante. Todos dispensam palco, ingresso e crítico — e todos sobrevivem há séculos.

V

Teatro de Rua
Contemporâneo

A tradição que não morreu — e que recusou o ingresso

Em , no Rio de Janeiro, um homem chamado Amir Haddad fez uma escolha que pareceu para muitos uma loucura e revelou-se, ao longo das décadas seguintes, uma das posições mais consequentes do teatro brasileiro: decidiu que o teatro devia ser gratuito, devia acontecer na rua, devia ser de todo mundo. Fundou o Grupo Tá na Rua com essa convicção simples e intransigente — e nunca voltou atrás.

A filosofia do Tá na Rua não é apenas estética: é política. Cobrar ingresso é selecionar quem pode entrar. Fazer teatro em teatro fechado é eleger uma arquitetura burguesa como condição de acesso à cultura. O teatro de rua de Amir Haddad recusa ambas as coisas não por pobreza de meios — o grupo desenvolveu ao longo dos anos uma linguagem cênica de grande sofisticação — mas por posição filosófica: o teatro pertence à praça pública, que é o espaço onde as classes sociais se encontram sem a mediação do dinheiro. Quando o Tá na Rua se apresenta numa praça do Rio de Janeiro, está fazendo política cultural antes de fazer qualquer coisa mais.

O Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR/SP), organizado a partir de , trouxe para a maior cidade do país a articulação coletiva dos grupos que fazem teatro nas ruas. A ocupação do espaço público como ato político — a praça tomada não para protestar, mas para criar — é uma das contribuições mais duradouras dessa tradição contemporânea. Num país onde o espaço público é sistematicamente privatizado, gentrificado e vigiado, um grupo de teatro que se instala numa praça e começa a apresentar, sem pedir licença ao consumo, é um ato de resistência que os folguedos populares praticam há séculos sem saber que tinham esse nome.

O teatro na rua não é teatro que saiu de casa.
É teatro que sempre morou na rua
e às vezes aceita uma visita do teatro que mora em caixinha.

— Sobre a relação entre teatro de rua e teatro de sala
Perfil de Grupo

Grupo Tá na Rua

Fundação: Rio de Janeiro, 1980 · Dir. Amir Haddad

Teatro gratuito, na rua, para todo mundo — sem ingresso, sem palco, sem seleção de público

Mais de quatro décadas de apresentações; influência sobre gerações de artistas de teatro de rua em todo o Brasil

A praça pública como espaço democrático de encontro de classes; teatro como bem comum, não produto cultural

Herdeiro consciente da tradição dos folguedos e do teatro popular — a rua como palco permanente, não alternativo

VI

O Circo-Teatro
Mambembe

A barraca de lona como parlamento do povo

Havia uma época em que o circo chegava na cidade antes do progresso. A lona era armada no largo principal, os cartazes eram colados nos postes, as crianças corriam para ver, e durante três dias ou três semanas o mundo pequeno e sufocante da cidade do interior tinha uma janela para algo maior, mais colorido, mais impossível do que o cotidiano permitia. Esse era o circo crioulo brasileiro — aquele que não veio do exterior montado como produto acabado, mas que cresceu no Brasil com famílias que faziam de suas vidas um perpétuo mambembe pelo interior do país.

O circo-teatro — a fusão da acrobacia e do teatro numa mesma noite de espetáculo — foi durante todo o século XIX e boa parte do XX a principal forma de acesso ao teatro para a maior parte dos brasileiros. Não o teatro das capitais, não o teatro dos livros e das críticas — o teatro vivo, encarnado, que subia ao palco improvisado depois do número de trapézio e contava histórias de amor, traição, humor e morte para plateias que nunca tinham pisado num teatro de verdade e nunca precisaram. O circo era o teatro de verdade deles.

As grandes famílias circenses — os Queirós, os Stéfano, os Garcia, os Atayde — percorreram o interior do Brasil com um repertório que incluía melodramas, comédias de costumes, revistas, farsas e, às vezes, Shakespeare adaptado para uma plateia que nunca ouvira falar de Hamlet mas que entendia perfeitamente quando um pai traído jurava vingança e um filho hesitava entre o amor e a honra. O texto não era o mesmo — a essência era idêntica. O circo-teatro ensinava, sem querer ensinar, que as grandes histórias humanas não são propriedade de nenhuma cultura. São de quem consegue contá-las com sinceridade.

Plínio Marcos — o dramaturgo que a ditadura mais tentou calar — viveu no circo antes de escrever para o teatro. Cresceu em Santos como filho de uma família humilde, e o circo foi uma de suas primeiras escolas de vida e de arte. A brutalidade do cotidiano que ele depois colocaria em peças como Dois Perdidos Numa Noite Suja e Navalha na Carne não veio de pesquisa literária: veio da convivência com os acrobatas, palhaços, mágicos e atores que fazem do mambembe uma existência. O circo como escola de vida não é metáfora: é uma afirmação sobre o que se aprende quando se vive fora das bordas do mapa, se apresenta todas as noites para públicos diferentes em cidades onde ninguém te conhece e o único compromisso que importa é fazer o espetáculo acontecer.

O circo-teatro entrou em declínio com a televisão e com a urbanização acelerada dos anos 1960 e 1970. O interior do Brasil ficou ligado às capitais pelo sinal de televisão, e a lona do circo concorreu com a tela pequena — e perdeu. Mas não desapareceu inteiramente. Grupos como o Os Fofos Encenam, em São Paulo, recuperam o repertório e a estética do circo-teatro como pesquisa artística consciente. E em várias cidades do interior ainda há famílias circenses que armam a lona e apresentam, num misto de nostalgia e teimosia produtiva, o mesmo espetáculo que seus avós apresentavam — porque o povo que assiste ainda precisa daquilo que o circo oferece: um mundo mais justo do que o de fora, encenado por gente que aprendeu a sorrir mesmo quando a vida não ajuda.

O palhaço que ri de si mesmo para fazer o outro rir
é o único filósofo que cobra ingresso.
E mesmo assim o povo paga —
porque a verdade que ele diz não tem outro lugar para ser dita.

— Sobre o palhaço e o circo-teatro
◆ O Circo-Teatro e a ETB — Próximo Capítulo

A história completa do circo-teatro brasileiro — sua dramaturgia própria, os grandes mestres como Benjamim de Oliveira, a pesquisa de Ermínia Silva sobre a narrativa oficial que o diminuiu, e o legado das famílias circenses — está desenvolvida integralmente no Capítulo XII desta Enciclopédia. O que aqui se apresenta é uma introdução: o circo como escola de teatro popular e como democratização do acesso à arte dramática no Brasil.

Séc. XIX

Famílias circenses começam a percorrer o interior do Brasil com espetáculos que combinam acrobacia, magia e teatro. O circo-teatro nasce como forma híbrida e popular.

c.

Benjamim de Oliveira — palhaço negro, ator, dramaturgo — protagoniza a primeira geração de artistas que transformou o circo num espaço de dramaturgia original brasileira.

Auge do circo-teatro como forma popular. As grandes famílias circenses percorrem o país. Repertório inclui melodramas, comédias, revistas e adaptações de clássicos.

Declínio com a televisão e a urbanização. O circo-teatro perde público mas não desaparece. Plínio Marcos carrega a escola do circo para a dramaturgia de resistência dos anos da ditadura.

Séc. XXI

Grupos de pesquisa recuperam o repertório e a estética. O circo-teatro como objeto de estudo acadêmico e como prática artística consciente de sua herança.